O homem que passou 18 anos mentindo

POR Pietro Bottura    EM Curiosidades      04/12/14 às 21h27

Sabe aquelas histórias de filme, nas quais uma pessoa assume identidades falsas por anos, de forma que é quase impossível rastrear ou reconhecer sua personalidade original? Os fatos que inspiram esses contos ficcionais são bem verdade, apesar do tom épico e trágico que carregam, e uma que vale a pena ser lida é a de Jean-Claude Romand, um homem que passou 18 anos mentindo e criando um bola de neve que, após quase duas décadas, acabou o engolindo também.

E, contrariamente ao estereótipo, o problema não começou com pais descuidados. Pelo contrário, Jean-Claude era considerado um garoto inteligente e querido, incentivado até o ponto de se tornar mimado e narcisista. Essa arrogância o acompanhou e foi crescendo à medida que se tornava um homem, e, em seu segundo ano da faculdade de Medicina, ele simplesmente faltou a um exame final, sem motivos. Apesar de confiar até demais em sua inteligência, sabia que precisaria de um diploma para ser um médico oficialmente, e não queria decepcionar seus pais. Por isso, no terceiro dia após a falta no exame, voltou a ir à faculdade como se nada tivesse acontecido. A mentira não foi descoberta, nem pelos colegas nem pelos pais, e não só Jean-Claude fingiu que se formou, mas também espalhava para todos que tinha um ótimo emprego. Esse início aparentemente terminaria com a foto abaixo: uma semana regada de sangue com uma família inteira morta numa casa incendiada.

casa_queimada_Jean_Claude_Romand

E, lembre-se, foram 18 anos. Ele se casou com uma mulher chamada Florence Kroled, a qual ele enganava fingindo ir a um trabalho que nunca existiu, e chegou a se mudar para uma casa, numa área periférica francesa que faz fronteira com a Suíça. Sua desculpa era um suposto emprego na OMS, na Suíça, onde eles por vezes realmente ia - mas não para trabalhar, e sim para assistir palestras e pegar folhetos, que convenientemente deixava "esquecidos" no banco de trás do carro e em casa. Fingia viagens quando na verdade ficava num hotel próximo ao aeroporto e trazia presentes de lá para seus dois filhos, Carolina e Antoine.

Os vizinhos invejavam a família feliz, que Jean-Claude, também convenientemente, preferia "não envolver com a vida profissional", e por isso jamais colocava em contato com nenhum dos colegas de trabalho. Enquanto isso, o mentiroso ficava cada mais deprimido e a culpa começava a se abater sobre ele; ficou paranóico, constantemente estressado. Mas a maior parte da culpa não era por isso; você provavelmente está se perguntando como ele se bancava, e a resposta é a mais óbvia possível para um mentiroso: dar golpes.

O preferido de Jean-Claude era enganar a própria família e amigos dizendo ter direito a investimentos com taxas especiais nos bancos suíços e franceses, pegando largas quantias para serem "investidas". Quando seu sogro tentou resgatar uma parcela, acabou "morrendo acidentalmente", e a única testemunha era Jean-Claude.

A próxima a cobrar foi a amante de Jean-Claude (sim, ele até tinha uma amante!), que havia "investido" mais de 900 mil Francos. O mentiroso começou a perceber que tinha ido longe demais, e resolver apagar todos seus rastros: comprou uma pistola com silenciador e foi para casa. Quando a mulher dormiu, matou-a com murros na cabeça, brutalmente. Na manhã seguinte, serviu o café para os filhos, disse que a mãe passava mal e teve um dia normal com eles. Quando os colocou para dormir, deu um tiro na cabeça de cada um. No outro dia, foi até a casa dos pais, jantaram juntos e depois foram também assassinados a tiros. Finalmente, levou a amante para uma estrada deserta, prometendo um jantar romântico, onde tentou a estrangular, sem sucesso.

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Estranhamente, desistiu da ideia, deixou-a em casa e voltou para casa, com sua família morta. Então tomou um vidro de barbitúricos, botou fogo no imóvel e foi se deitar. Mas não morreu. Ao invés disso, foi encontrado, e, apesar de inicialmente afirmar que as mortes haviam sido causadas pelo incêndio, logo foi pego e condenado à prisão perpétua, que considerou uma punição justa e até libertadora, já que finalmente não precisaria mais viver mentindo.

Pietro Bottura
EQUIPE FATOS DESCONHECIDOS, BRASIL

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