O "Homem Sem Grana", que viveu por três anos sem gastar ou ganhar um único centavo

POR Pietro Bottura    EM Ciência e Tecnologia      18/10/14 às 22h41

Imagine só conseguir o que por décadas os punks, hippies e participantes de outros movimentos de contracultura lutaram, como não depender mais de bancos, advogados, patrões, salário fixo e pagar aluguel. Pode até parecer sonho - até porque é, mesmo - mas isso não significa que seja impossível, e muito menos novidade. Afinal, como afirmou o escritor Arthur Clarke, "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia", e, para o homem moderno, uma tecnologia como essas seria na verdade a volta histórica: aprender a viver da natureza sem destruí-la, algo que, nos tempos atuais, parece possível somente com magia, mesmo.

Apesar disso, um irlandês de 32 anos, chamado Mark Boyle, decidiu romper com  toda escravidão (e mordomias) geradas pelo que considera o maior símbolo e vilão de nossos tempos e sociedade: o dinheiro. E isso não parte de um matuto caipira, e sim de um homem formado em administração de empresas, que radicalmente acordou um dia e decidiu viver do que a natureza dá ao invés de ralar nas famosas 8 horas diárias de um trabalhador comum.

Agora, numa vida modesta, porém idílica, ele toma banhos em riachos, come o que planta e cozinha numa fogueira. Segundo Boyle, que também é ativista, isso tudo se motivou não apenas pelo desejo de simplificar a feira das vaidades que é o mundo atual, mas também parar de destruir o meio ambiente, algo que todo mundo que mora em cidades grandes faz, mesmo que indiretamente.

E, apesar disso tudo, Boyle não se tornou um recluso, e continua tendo internet (apesar de não ter celular), incluindo um blog, que usou como base para lançamento de seu livro, "The Moneyless Man", ou "O Homem Sem Grana", no Brasil. Para conhecer um pouco mais sobre sua experiência, a volta do uso do dinheiro e o seu desejo de montar uma comunidade alternativa, confira aqui, na íntegra, a entrevista que Boyle concedeu à  revista Galileu:

Quanto tempo você viveu sem dinheiro?

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Foram dois anos e meio, quase três. Eu vivi num pedaço de terra, onde cultivava minha própria comida. Eu uso um pouco de energia solar para o meu laptop, que é o único modo de me comunicar com o resto do mundo - eu tenho que conseguir mostrar às pessoas que é possível viver sem dinheiro. Tomo banhos em um rio aqui perto. Uso materiais da natureza no meu dia-a-dia: escovo meus dentes com ossos de animais misturados com sementes.

Mas como é sua rotina? Como foi seu dia hoje, por exemplo?

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Foi bem normal na verdade, sempre me fazem essa pergunta. Eu coletei frutas, tomei banho no rio... Tem alguns dias que passo inteiro plantando, outros colhendo. Em alguns outros eu recolho lenha. Daí volto a plantar. Meu dia-a-dia é basicamente ir atrás das coisas essenciais sem gastar dinheiro. E isso exige habilidades muito básicas. Além dessas coisas, também fico cuidando da comunicação, falando com a mídia. Sabe, minha história fez sucesso nos jornais daqui e acabei dando muitas entrevistas. Escrevo bastante, acabei de terminar de escrever um segundo livro que será lançado no final do ano. Mas, ao mesmo tempo em que cuido dessas coisas, tenho que sobreviver.

O que fez você seguir esse estilo de vida?

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Eu estava em uma época de questionamentos, pensando sobre todos os problemas do mundo: destruição das florestas, trabalho forçado, extinção dos recursos da natureza. Estava pensando nos problemas ecológicos e sociais, em quais deles eu poderia trabalhar, e percebi que todos têm um denominador em comum. Eles são causados pelos vários graus de separação entre o consumidor e o que ele consome. A gente não sabe por quais processos os produtos passam, quais os danos que eles causam. Não sabemos mais como o que consumimos é produzido. Aí eu percebi que o dinheiro era um fato muito importante dentro disso, ele nos separa do que consumimos.

Minha primeira ideia foi falar sobre as conseqüências do uso do dinheiro, porque todos sabemos de seus benefícios, mas ninguém fala de suas conseqüências. Mas depois de 6 meses discorrendo sobre isso, vi que eu deveria dar o exemplo. Acredito muito na frase de Gandhi: "Seja a mudança que você quer ver no mundo". Se eu vou falar disso, o mínimo que eu deveria fazer é viver isso. Acho que dinheiro nos causa danos de várias formas. Combinado com outros fatores econômicos, como a divisão do trabalho e economia de larga escala, está destruindo a natureza, porque não vemos os efeitos de nossas compras no ambiente.

Você é formado em administração de empresas. Isso tem alguma coisa a ver com o rumo que tomou?

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Claro. Compreender como tudo funciona foi muito crucial. Quanto mais você entende de economia e dos processos envolvidos, mais você percebe que é insustentável. Durante 4 anos estudando economia, eu nunca ouvi falar do mundo real. Ninguém fala de pessoas, solo, oceanos, florestas. Só aprendemos teorias e equações, sem nos importar com o mundo real e com o fato de o estarmos destruindo. Isso me deu uma ideia das falhas básicas do nosso modelo econômico. O que estou tentando fazer é criar uma nova história, explorar um novo modelo que não seja tão dependente do dinheiro, baseado na comunidade e na relação com a terra.

O que sua família pensou dessa mudança?

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Eles me deram muito apoio. De inicio, eles não falaram muito sobre isso, porque foi uma mudança muito súbita. Mas hoje eles me dão apoio total, vêem que o mundo fica cada vez pior. Quanto mais conversamos, mais eles percebem que nos próximos cem anos as coisas vão ficar muito difíceis, inclusive para seus futuros netos.

Nos últimos meses você voltou a lidar com dinheiro. Por quê?

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Estamos começando um projeto de comunidade onde possamos viver 100% da terra. Onde possamos viver de um modo que não haja trocas. Vamos plantar comida e dar cursos para quem não souber plantar. Os cursos serão livres. As pessoas que forem para os cursos também irão produzir as comidas nessa terra. Queremos mostrar um outro modo de viver junto, de produzir as comidas de que precisamos. A intenção não é só reduzir nosso impacto no planeta, mas queremos fazer uma economia baseada no "dar". Não acreditamos no "dar" condicional, que é o "trocar", o "eu te dou isso se você me der aquilo". Esse é um jeito muito cruel de viver. Não precisamos sempre receber algo em troca.

Você acha seu movimento vai ganhar mais adeptos?

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Em 2008, quando a crise estourou, o movimento cresceu muito. E agora cresce bastante em países como Grécia e Portugal. É interessante ver que, quando a economia normal se deteriora, as pessoas começam a procurar por outros modos de viver. Estamos crescendo bem rápido. Quando tudo começa a dar errado, as pessoas procuram por um modo de se salvar. É por isso que estou tão ocupado hoje em dia, as pessoas querem saber sobre isso. Muitos querem saber como viver sem dinheiro, já que não têm dinheiro.

E você acha que dá pra todo mundo viver assim?

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Acho que precisamos de uma transição. Precisamos mostrar as conseqüências ecológicas e sociais de nossa economia atual. Acredito que as pessoas vão entender que largar o dinheiro é o único jeito sustentável de viver. Acho que viveremos uma transição para sermos menos dependentes do dinheiro, para restabelecermos nossa conexão com a comunidade e com a terra sob nossos pés.

 

É...Pra quem já viu filmes como "Na natureza selvagem", esse é um sonho realizado, e a tendência mundial parece só crescer quando o assunto é gente cansada do capitalismo, recorrendo a métodos ao mesmo tempo arcaicos e inovadores para a sobrevivência. Mas, no final de tudo, não seria a maior evolução do homem (re)aprender a viver em harmonia com a natureza? O que você acha, que Boyle é doido, heroi ou só mais um cara cansado disso tudo?

Pietro Bottura
EQUIPE FATOS DESCONHECIDOS, BRASIL

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