Cumprimentar alguém é algo tão comum que a maioria das pessoas raramente para pra pensar e se questionar porque temos hábitos assim. Em que momento da evolução da humanidade decidimos que pressionar os corpos ou os lábios representava um ato de gentileza, carinho, respeito ou amor?

Nós conseguimos entender muito mais do que percebemos a partir do toque. Os humanos (e vários animais) podem comunicar muitas informações, de agressão a carinho, com apenas um aperto de mão ou um tapinha nos ombros. Como seres sociais, esse desejo de se conectar por meio do contato humano está dentro de nós de uma forma que fazemos até mesmo sem perceber.

Dessa maneira, formas de contato íntimo envolvendo o toque, como abraços e beijos, soam como naturais para a maioria das pessoas. Mas como é que começamos a fazer essas coisas?

Aperto de mão

O aperto de mão existe de diferentes formas há milhares de anos, mas suas origens são nubladas para os historiadores. Uma popular teoria defende que o gesto começou como uma forma de demonstrar intenções pacíficas. Ao estender as mãos vazias, estranhos poderiam mostrar que não carregavam armas e não tinham nenhuma intenção de violenta.

Alguns sugerem que o movimento de balançar as mãos pode ter surgido como forma de revelar facas ou adagas escondidas nas mangas. Uma outra explicação sugere que o aperto de mão era visto como símbolo de boa fé na hora de fazer acordos, promessas e juramentos.

Ainda que o aperto de mão tivesse vários significados no mundo antigo, seu uso como um cumprimento do dia-a-dia é algo muito mais recente. Alguns historiadores acreditam que ele só se popularizou no século 17, com os Quakers (grupos religiosos com origem num movimento protestante britânico da época).

O grupo via o toque das mãos como uma forma alternativa mais igualitária de cumprimento quando comparada com se curvar ou tocar a ponta de um chapéu. Mais tarde, o aperto de mão se tornou algo comum e, no século 19, já aparecia em manuais de etiqueta como forma apropriada de cumprimento.

Abraço

Para o abraço, também não existe explicação muito clara de sua origem. Acredita-se que o gesto faça parte de um conjunto de atos que os humanos compartilham com os primatas e outros animais, fazendo por instinto para demonstrar amor, companheirismo e conforto. O gesto é praticamente universal e faz parte de quase todas as culturas do mundo.

Apesar da história do abraço não poder ser traçada com perfeição, a palavra já foi utilizada em vários registros ao longo da história, desde os primeiros abraços em árvores realizados em protestos na Índia até os movimentos de abraços grátis que se espalharam nos tempos modernos.

Assim como o aperto de mão, o abraço era visto como uma forma de mostrar intenções pacíficas numa batalha ou numa relação social com estranhos. Se você mostrasse que não tinha armas visíveis nas mãos ou no corpo, poderia estar perto suficiente de uma pessoa.

Adicionando aos elementos históricos, podemos citar a própria biologia do corpo. O ato de abraçar libera a ocitocina – que desenvolve apego e empatia entre pessoas, dentre outros. Sendo assim, talvez a motivação do abraço seja ainda mais simples: apenas porque nos faz sentir bem.

Beijo

Historicamente, a evidência do beijo romântico pode ser traçada para cerca de 3.500 anos atrás, em textos em sânscrito védico, uma antiga língua indiana. Neles, o beijo é descrito como uma forma de consumir a alma de outras pessoas (mas não de uma forma sombria e negativa, como pode parecer). Por volta do século 2, o Kama Sutra já incluía um capítulo inteiro sobre beijos e hoje, séculos depois, o ato é completamente normal.

Apesar disso, o beijo não é um ato universal como o abraço. Na verdade, uma pesquisa publicada na revista American Anthropologist mostrou que apenas 46% dos grupos culturas do mundo utilizam o beijo como forma de contato (é importante ressaltar que esses grupos representam cerca de 90% da população mundial). Entre os 64% que não beijam, a maioria acha a ideia repugnante. Esses resultados mostram que o beijo pode ser interpretado como um comportamento aprendido socialmente que acabou evoluindo dentro de grupos sociais, diferente daqueles que se desenvolveram a partir de instintos.

Por outro lado, também existem evidências de que o beijo faz parte de nossa biologia, o que indicaria exatamente que ele pode ser instintivo. Apesar de nem todos humanos serem adeptos do beijo, chimpanzés e bonobos também se beijam. Nenhuma das espécies, no entanto, faz isso de forma romântica. Para os chimpanzés, o beijo é uma forma de reconciliação, principalmente entre machos. Já no caso dos bonobos, o sexo faz parte de praticamente tudo dentro da espécie, o que diz que o beijo é algo muito mais comum na vida dos animais.

Como deu pra perceber, os hábitos parecem tão intrínsecos na sociedade que é até difícil compreender suas origens. O que achou das relações históricas e biológicas de nossos cumprimentos?

Publicado em: 15/06/17 11h33