15 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos já usam cigarro eletrônico

Primeiro levantamento global sobre cigarros eletrônicos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou nesta semana o primeiro levantamento global com dados sobre o uso de cigarros eletrônicos, popularmente conhecidos como vapes. O relatório mostra que pelo menos 15 milhões de pessoas entre 13 e 15 anos já utilizam o produto em todo o mundo, e que o número cresce de forma mais acelerada do que o do cigarro tradicional entre jovens. O estudo foi publicado em novembro de 2025 no Global Tobacco Epidemic Report, documento atualizado a cada dois anos pela OMS, e serve de base para políticas públicas de combate ao tabagismo.

Segundo o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o aumento entre adolescentes representa “uma ameaça emergente à saúde pública”, especialmente porque muitos desses produtos são vendidos com aromas, embalagens e campanhas que atraem menores de idade.

“A indústria do tabaco está criando uma nova geração de dependentes, com produtos que mascaram o perigo e mantêm o vício sob outra forma”, afirmou Tedros em comunicado.

Tabagismo ainda preocupa: 1 em cada 5 adultos fuma

Embora o consumo de cigarros convencionais tenha caído cerca de 25% nas últimas duas décadas, o relatório revela que um em cada cinco adultos no mundo ainda fuma regularmente. O número representa mais de 1 bilhão de fumantes ativos. Os maiores índices permanecem em países de baixa e média renda, onde campanhas de cessação e restrições de venda são menos efetivas.

Por outro lado, o uso de cigarros eletrônicos é mais comum em países de alta renda, especialmente nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Coreia do Sul.
Segundo a OMS, há uma percepção equivocada de que os vapes são uma alternativa “segura” ou “menos prejudicial” que o cigarro, mas as evidências mostram riscos semelhantes à saúde respiratória e cardiovascular.

Adolescentes no centro da preocupação

O relatório destaca que o público entre 13 e 15 anos é o grupo de maior crescimento no uso de cigarros eletrônicos. Entre os fatores que contribuem para isso estão:

  • Facilidade de compra on-line, muitas vezes sem verificação de idade;
  • Designs chamativos e sabores artificiais, como frutas e doces;
  • Influência de redes sociais e publicidade indireta por influenciadores digitais;
  • Falta de regulamentação em diversos países.

Estudos citados pela OMS indicam que jovens usuários de cigarros eletrônicos têm duas vezes mais chances de migrar para o cigarro convencional no futuro, o que pode reverter décadas de avanços no combate ao tabagismo.

Impactos e respostas globais

A OMS recomenda que países estabeleçam proibições totais de marketing, restrinjam a venda de produtos com nicotina a maiores de idade e adotem tributação e rotulagem semelhantes às aplicadas ao cigarro comum. Atualmente, apenas 34 países proíbem completamente a comercialização de cigarros eletrônicos, enquanto 88 aplicam algum tipo de restrição. A agência também pede que plataformas digitais e aplicativos controlem a publicidade velada de marcas que utilizam influenciadores ou estratégias de gamificação para alcançar jovens.

Brasil e a posição da Anvisa

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém desde 2009 a proibição da importação, comercialização e propaganda de cigarros eletrônicos. Mesmo assim, a entidade reconhece que o consumo cresce de forma clandestina, principalmente entre adolescentes e jovens adultos, e que há um debate em curso sobre novas medidas de fiscalização e sanções.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o país tem cerca de 2,5 milhões de usuários de cigarros eletrônicos, número que quadruplicou em apenas cinco anos. As autoridades brasileiras alertam para o risco de lesões pulmonares associadas a substâncias químicas inaladas e para o potencial de dependência da nicotina líquida.

Um alerta global

O relatório da OMS conclui que, embora o tabagismo tradicional esteja em queda, o surgimento dos cigarros eletrônicos representa uma nova fase da epidemia de nicotina.

“É um produto diferente, mas com o mesmo objetivo: criar e manter dependência química”, resume o texto.

A OMS reforça que a prioridade dos governos deve ser proteger crianças e adolescentes de uma indústria que busca constantemente novos consumidores, agora com apelo tecnológico e digital.

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