História

1709: o ano em que a Europa ficou completamente congelada

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Em 1709, os habitantes de toda a Europa se depararam com um cenário inusitado e apocalíptico, que perdurou por vários meses. Na manhã de 6 de janeiro, as pessoas acordaram com temperaturas de cerca de -48 °C e um completo escuro. Na época ainda não havia fontes de energia e o Sol não “apareceu” por um bom tempo. 

O frio chegou literalmente do dia para a noite e metros e metros cúbicos de gelo foram criados pela neve que começou a cair e não parou mais. Milhares de pessoas morreram enquanto dormiam, já que o frio estrondoso chegou sem que ninguém esperasse. O mesmo aconteceu com viajantes que estavam nas estradas ou nos mares. A maior causa das mortes foi a hipotermia, já que os habitantes foram expostos a um frio extremo. Da mesma forma aconteceu com os animais de toda a região da Europa, como peixes, pássaros e com o gado.

Durante três longos meses, Paris ficou ilhada sem poder receber suprimentos, com a neve bloqueando estradas em todo o continente e rios famosos, como o Tâmisa. Nos rios, as camadas de gelo alcançaram até 30 centímetros de espessura. A Finlândia perdeu então um terço da sua população. A Islândia, por sua vez, perdeu metade da quantidade total de habitantes. Ao mesmo tempo, não existia mar aberto em torno da região, já que tudo estava congelado.

Foi diante desse cenário que as pessoas tiveram que apelar para o canibalismo dos cadáveres daqueles que não resistiram à geada. Isso porque não havia alimentos estocados, já que ninguém sabia que o frio chegaria. Da mesma forma, nenhum suprimento conseguia chegar até a população e não havia animais para sacrifício, já que grande parte havia falecido. A água e demais bebidas foi um outro recurso que congelou rapidamente por toda a Europa.

O frio mais cruel em 500 anos

O inverno de 1709 foi considerado “o mais frio e cruel que a Europa enfrentou em 500 anos”, após três meses de tortura em meio a seis ondas de frio em que as temperaturas só despencaram cada vez mais. A essa altura, florestas inteiras estavam mortas, sem contar a grande quantidade de vítimas. Na Inglaterra, chamaram o período de Great Frost ou “o grande congelamento”, em português. Na França, os terríveis três meses entraram para a história como Le Grand Hiver ou “o grande inverno”.

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O frio atingiu tanto ricos quanto pobres de forma semelhante, mas os últimos sofreram de forma mais violenta. Relatos históricos indicam que a duquesa de Orleans, na França, escreveu um bilhete para sua tia na Alemanha. “Estou sentada à beira do fogo, há uma tela atrás da porta, que está fechada, estou usando peles ao redor do pescoço, meus pés estão envoltos em pele de urso e mesmo assim estou tremendo tanto que mal consigo segurar a caneta. Nunca vi um inverno como este”, dizia a carta.

O aumento das temperaturas

Quando as temperaturas finalmente começaram a aumentar nas regiões da Europa, o degelo causou inundações devastadoras que ceifaram a vida de ainda mais pessoas. Além disso, nada floresceu na primavera, e o calor trouxe uma onda de fome, já que não havia nenhuma plantação para ser colhida ou animais para comer. Em Paris, muitos só sobreviveram porque as autoridades, temendo uma revolta, obrigaram os ricos a fornecer sopas. Com nenhum grão para fazer pão, em alguns países as pessoas faziam farinha moendo as folhas de samambaia com outras plantas. 

Até o verão, houve relatos de pessoas famintas nos campos “comendo pasto como ovelhas”. Foram 155 casos de rebelião aberta somente na França, com pessoas invadindo qualquer edifício, em sua maioria castelos e instituições religiosas. Segundo uma análise feita pelo The Guardian, toda a economia agrícola da França foi destruída. Além disso, o PIB do país chegou a 23% e demorou cerca de 10 anos para que começasse a apresentar sinais de recuperação.

Não há como relatar exatamente o número de vítimas. No entanto, é possível dizer que o número de mortos chegou à casa dos milhões. O frio não foi o único motivo que levou tantas pessoas ao falecimento, já que junto a ele veio a onda terrível de fome. Além disso, após o fim da onda de baixas temperaturas, que durou cerca de três meses, doenças como o tifo e a varíola se espalharam em endemias pelas regiões afetadas, como a França.

Explicações para o ocorrido na Europa

A geada de 1709 ainda intriga pesquisadores e curiosos. O National Geographic sugeriu que o evento tenha acontecido devido a um fenômeno chamado Mínimo de Maunder, descrito pela NASA como um período em que o Sol “entrou em fase de silêncio”. O Sol ficou mais escuro e houve menos atividade vista em sua superfície, o que resultou em menos produção de luz solar. Consequentemente, as temperaturas ficaram muito baixas.

Em 2004, um climatologista da Universidade de Berna, na Suíça, produziu uma reconstrução mês a mês do clima da Europa desde 1500. O estudo aconteceu a partir de uma combinação de medições de indicadores aproximados (como anéis de idade de árvores e o interior de geleiras).

Com a pesquisa foi possível comprovar que, de fato, não houve um inverno pior do que o de 1709. Em grande parte da Europa, a temperatura ficou 7°C abaixo da média dos meses mais frios do século XX.

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