Caso ‘Brasil inabitável até 2070’ é um exemplo de péssima comunicação científica

Desde os primórdios da humanidade, o ser humano é fascinado pelo seu próprio fim. Não é à toa que histórias que exploram o fim do mundo fazem tanto sucesso na ficção. Fora dela, em 2020, três cientistas publicaram um estudo chamado “O surgimento de calor e umidade severos demais para a tolerância humana”. Esse mesmo estudo foi descoberto pela imprensa brasileira essa semana e foi noticiado como “Brasil inabitável até 2070”. Contudo, existem vários equívocos com relação a isso.

Conforme a maior parte das notícias que falam sobre esse estudo é entendido que o estudo é recente, da NASA e que é sobre o nosso país. Entretanto, a realidade é que ele é de 2020 e não fala sobre o Brasil. Ele foi revisado no blog de Colin Raymond, pesquisador da Nasa e um dos autores do artigo em 2022, e nessa revisão que ele citou o Brasil como um dos países que são vulneráveis.

Além disso é feita somente uma menção de rodapé sobre o “prazo de 50 anos para para salvar o Brasil”. “As áreas mais vulneráveis incluem o sul da Ásia, o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho por volta de 2050; e o leste da China, partes do sudeste da Ásia e o Brasil até 2070”, escreveu ele.

Esclarecendo

Jornal Opção

No estudo de 2020, os pesquisadores fizeram o mapeamento dos eventos de calor extremo entre 1979 e 2017, que foram definidos por conta da temperatura de bulbo úmido maior do que 35ºC. A temperatura de bulbo úmido faz relação entre calor e umidade e marca o estresse térmico no corpo humano. Os 35º C é o limite fisiológico e depois disso o suor não consegue resfriar o corpo.

Com isso, os pesquisadores fizeram a análise dos dados colhidos por estações meteorológicas nestes 38 anos e viram que desde 1979 os eventos de calor de bulbo úmido acima de 30°C mais do que duplicaram. Por conta disso, o estudo previu temperatura de bulbo úmido de 35°C acontecendo em meados do século XXI. Contudo, desde 2020, quando ele foi feito, alguns lugares já tiveram esse evento.

“Descobrimos que o calor úmido extremo é altamente localizado tanto no espaço quanto no tempo e foi subestimado nos estudos de reanálise. Nossas descobertas ressaltam, portanto, o sério desafio colocado pelo calor úmido, que é mais intenso do que o relatado anteriormente e cada vez mais severo”, escreveram os pesquisadores.

Outro ponto ressaltado pelos pesquisadores é que se a temperatura média da Terra passar dos 2,5ºC de aquecimento em comparação com o período pré-industrial, vários locais podem passar dos 35ºC de bulbo úmido.

Brasil inabitável até 2070

Asdb notícias

Com tudo esclarecido sobre o que de fato o estudo falou, é necessário falar sobre o “Brasil inabitável até 2070” que as notícias disseram. O primeiro ponto é que um bulbo úmido de 35ºC não consegue extinguir a humanidade. “Estas condições, próximas ou além da tolerância fisiológica humana prolongada, ocorreram principalmente apenas durante 1 a 2 horas de duração”, destacaram os pesquisadores.

Como se isso não bastasse, o nosso país é imenso. Por conta disso, dizer que o “Brasil ficará inabitável até 2070” é uma forma de tentar chamar atenção para um problema que realmente existe, mas acaba ficando perdido em um fatalismo.

Fonte: Jornal opção

Imagens: Jornal opção, Asdb notícias 

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