
A inteligência artificial está começando a ocupar um espaço que, até pouco tempo atrás, parecia exclusivo de investidores e plataformas financeiras: a execução de operações no mercado de ações.

A inteligência artificial pode facilitar a interação com plataformas de investimento, mas não elimina os riscos do mercado. Foto: Reprodução.
Uma novidade envolvendo assistentes de inteligência artificial permite que investidores utilizem comandos em linguagem natural para interagir com suas contas de investimento.
A ideia é tornar a interação com uma corretora mais simples. Em vez de navegar por diferentes menus para localizar uma ação e preparar uma ordem, o investidor pode descrever o que deseja fazer em uma conversa com o assistente.
Um exemplo seria pedir que o sistema identifique ações que estão em queda há vários meses e acompanhe esses papéis. A IA pode então preparar uma ordem seguindo as instruções recebidas.
No entanto, isso não significa que o sistema tenha liberdade total para movimentar o dinheiro do usuário.
Em uma das integrações citadas na reportagem, o investidor precisa analisar e aprovar a ordem antes que ela seja efetivamente enviada. Além disso, o sistema não permite que o assistente faça pagamentos ou retire dinheiro da conta.
Essa integração é possível graças ao Model Context Protocol, conhecido pela sigla MCP. Trata-se de um padrão aberto criado para permitir que sistemas de inteligência artificial se conectem a ferramentas e serviços externos.
Na prática, a tecnologia funciona como uma ponte entre o assistente de IA e outros sistemas. Assim, a inteligência artificial pode interpretar uma solicitação e interagir com serviços compatíveis.
A Scalable Capital, plataforma europeia de investimentos citada na reportagem, utiliza esse modelo para permitir a conexão de assistentes de IA às suas ferramentas. A empresa informou possuir mais de € 60 bilhões em ativos de clientes e mais de 1 milhão de clientes, principalmente na Alemanha e na Áustria.
É justamente nesse ponto que o assunto exige mais cautela.
Uma pesquisa publicada pela Elm Wealth colocou diferentes sistemas de inteligência artificial à prova em um experimento chamado “Crystal Ball Challenge”. ChatGPT, Claude, Gemini e Grok receberam informações históricas relacionadas ao mercado para tentar antecipar o comportamento dos ativos.
Os resultados mostraram que alguns modelos tiveram desempenho superior ao de participantes humanos em parte das rodadas. O Claude superou os participantes humanos em 76% das sessões, enquanto o ChatGPT conseguiu o mesmo em 63%. Gemini ficou em 43% e Grok em 51%.
Apesar disso, os pesquisadores encontraram uma limitação importante.
Segundo o estudo, os sistemas tiveram desempenho relativamente melhor ao tentar identificar em quais ativos investir. Porém, apresentaram problemas ao determinar quanto dinheiro deveria ser colocado em cada operação.
Os pesquisadores observaram que os modelos assumiram riscos elevados em determinadas situações. Isso pode ser especialmente perigoso no mercado financeiro, onde uma sequência de decisões erradas pode provocar perdas expressivas.
Por isso, um bom desempenho em determinado experimento não significa que uma inteligência artificial consiga prever o mercado ou garantir lucro.
O próprio comportamento histórico dos ativos não é suficiente para eliminar acontecimentos inesperados. Notícias econômicas, decisões políticas, crises e mudanças repentinas podem alterar completamente o cenário.
Apesar dos riscos, a novidade representa uma mudança importante na relação entre pessoas e investimentos.
A linguagem natural pode tornar ferramentas financeiras mais acessíveis. Em vez de aprender imediatamente todos os menus e comandos de uma plataforma, o usuário consegue explicar o que pretende fazer de maneira semelhante a uma conversa.
Além disso, a IA pode ajudar a organizar informações e automatizar tarefas. Para investidores que já possuem conhecimento do mercado, isso pode representar uma economia de tempo.
Por outro lado, a facilidade também pode criar uma falsa sensação de segurança. Uma ordem de compra pode ser simples de executar, mas a decisão sobre colocar dinheiro em determinado ativo continua envolvendo riscos.
A chegada da IA às plataformas de investimento não significa que o mercado financeiro ficou previsível.
Mesmo que um assistente consiga analisar grandes volumes de informações em pouco tempo, ele não sabe com certeza o que acontecerá com uma ação no futuro.
Portanto, a tecnologia deve ser encarada como uma ferramenta de apoio, e não como uma garantia de lucro. Antes de confirmar qualquer operação, o investidor precisa compreender o ativo, avaliar os riscos e verificar cuidadosamente a ordem preparada pelo sistema.
A principal mudança, nesse caso, está na forma de interagir com as ferramentas financeiras. A inteligência artificial pode ajudar a pesquisar, organizar informações e executar determinadas tarefas. A decisão sobre o próprio dinheiro, porém, continua exigindo responsabilidade humana.
Fonte: Estadão






