Mundo Afora

A biblioteca humana que empresta pessoas

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Na Biblioteca Humana, títulos como “transgênero”, “ex-gangster”, “poliamoroso”, “satanista”, “pai adotivo solteiro”, são obras disponíveis em carne e osso.

As obras são, na verdade, voluntários que enfrentaram preconceitos em suas vidas devido às características marcantes. Os “leitores” podem pegá-los emprestado para uma conversa de meia hora, em que são incentivados a fazer as perguntas mais incômodas.

A peculiar biblioteca funciona em mais de 80 países ao redor do mundo. No local, são publicadas pessoas, como, por exemplo, o crossdresser peruano Jonathan, também conhecido como Samantha Braxton.

Quando foi convidada para participar da Biblioteca Humana de Lima (Peru), Samantha já era uma personagem conhecida. Ela foi criada para inspirar e fazer com que as pessoas se sentissem bem consigo mesmas.

“Quando sou publicada, sinto que posso testemunhar como meus leitores apagam a imagem que tinham de mim em suas mentes”, diz ela no site da biblioteca.

Ela afirma que entre os seus leitores estão muitos LGBTQIA+ que não têm orientação sexual a amigos e familiares em busca de conselhos.


“Não temos tempo para parar e aprender o que não sabemos, então colocamos as pessoas em caixinhas”, disse o fundador da Biblioteca Humana, Ronni Abergel.

“Em nossa biblioteca, recomendamos sentar e conhecer pessoas com quem você normalmente não conversaria porque há algo nelas que talvez te provoque um incômodo peculiar. Assim, você não aprende muito sobre elas, mas aprende ainda mais sobre você mesmo”, acrescenta Abergel.

O objetivo da Biblioteca Humana é desafiar, por meio da conversa, os estereótipos que todos temos sobre outras pessoas.

O começo da Biblioteca Humana

Foto: MENNESKEBIBLIOTEKETS / BBC

O projeto foi testado pela primeira vez em um festival de música na Dinamarca. Abergel, seu irmão e amigos reuniram voluntários para atuar como livros abertos que as pessoas poderiam pegar emprestado no evento.

“Desde o primeiro dia, foi incrível. Esgotou, as pessoas realmente aproveitaram a chance. Tínhamos mais de 50 volumes diferentes na prateleira.”

Abergel dirigiu a Biblioteca Humana como um hobby por muitos anos. O modelo foi testado na Noruega, em Portugal e na Hungria.

Em 2013, ele patenteou o projeto e assumiu como um trabalho. Após isso, junto com a sua equipe, Abergel começou a construir acervos de livros em diferentes países, usando as redes sociais e locais para encontrar voluntários.

Jardim da leitura

Foto: MENNESKEBIBLIOTEKETS / BBC

No ano de 2021, foi criado o jardim de leitura na capital dinamarquesa Copenhagen, onde bibliotecários ajudam leitores a encontrar os livros disponíveis. O acervo muda dependendo dos voluntários presentes, e vão de “Muçulmano” e “Aposentado precoce”, a “Dei meu filho para adoção” e “Alcoólatra sóbrio”. Após a seleção ser feita, o livro e seus leitores se sentam juntos.

“Em dois meses, li três livros. Foi uma experiência agradável e para a próxima semana, estou muito animada. Acho que todo mundo deveria experimentar isso porque você pode aprender muito”, disse Tina, uma das leitoras, à BBC.

Christian, de 29 anos, é um dos livros da Biblioteca Humana. O professor tem esquizofrenia e ao ser questionado sobre a decisão de fazer parte do projeto, afirma que: “Sempre terei noites em que fico acordado na cama, apavorado. Mas se fazer isso ajuda uma pessoa, deixa de ser uma aflição e se torna uma ferramenta que pode ser usada para algo útil. Isso desestigmatiza algumas questões que eu acho que precisam ser desestigmatizadas”.

As mentes fechadas

Foto: MENNESKEBIBLIOTEKETS / BBC

A Biblioteca Humana faz sessões públicas regulares em todo o mundo, onde qualquer pessoa pode visitar. No entanto, costuma atrair pessoas que já são mente aberta.

“Estamos potencialmente pregando um pouco para convertidos”, disse Abergel. “Não esperamos que haters ou pessoas assustadas apareçam por conta própria.”

“Mas alguns deles alcançamos por meio do trabalho”, disse, referindo-se à necessidade de organizar eventos para empresas privadas, desde multinacionais como o Google, até empresas locais, para financiar sessões públicas.

Um exemplo é a cervejaria holandesa Heineken. Abergel enfatiza que quando a empresa faz “seu treinamento de desenvolvimento de liderança, espera-se que todos participem, gostem da ideia ou não”.

Funciona?

 

Ao ser questionado sobre as evidências de que a Biblioteca Humana funciona, Abergel afirma que: “Temos um estudo de impacto recente, baseado em sessões online realizadas no ano passado para o grupo de seguros Zurich. Uma consultoria externa fez uma avaliação. É uma amostra pequena, mas muito promissora. Mostrou que tem um impacto profundo”.

No entanto, o fundador aponta que não tem estudos de campo a longo prazo. “Nunca tivemos recursos para investir nesse tipo de monitoramento, mas um dia teremos.”

Conitudo, o fundador alega que ao longo dos 21 anos de trajetória, a Biblioteca apenas cresceu. “Quando Google ou Starbucks nos procuram para trabalhar é porque sabem que tipo de valor agregamos.”

Em relação ao pagamento dos livros, Abergel afirma:

“A credibilidade do livro está em jogo. Se você paga por seus livros, é por isso que eles dizem o que dizem? Damos a eles todos os recursos que podemos sem profissionalizá-los. Ser um livro aberto não deve se tornar toda a sua identidade. Isso não é saudável para ninguém”.

Projetos futuros

Foto: MENNESKEBIBLIOTEKETS / BBC

Atualmente, a Biblioteca Humana está construindo repositórios de livros em países onde existem fortes laços corporativos, como Dinamarca, Reino Unido e Estados Unidos. Além disso, Abergel planeja colocar seus recursos extras em países onde acredita que o projeto pode crescer.

Também há planos para a criação de um aplicativo onde as pessoas podem se registrar como leitores e encomendar um livro de um catálogo online. “Você pode estar em casa e pedir emprestado a alguém na Nova Zelândia ou na Coreia do Sul.”

Fonte: BBC

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