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A importância da preservação do silêncio

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Especialistas apontam que a preservação do silêncio é importante para a humanidade. Por isso, o ecologista acústico Gordon Hempton deu a volta ao mundo três vezes nos últimos 41 anos procurando e documentando o que chama de a “jukebox movida a energia solar” do planeta, as paisagens sonoras naturais que estão desaparecendo.

O pesquisador se encolheu dentro de um tronco oco de conífera Picea sitchensis no noroeste do Pacífico para gravar, segundo ele, “o maior violino do mundo”. Além disso, andou de canoa pelo rio Amazonas para registrar o gorjeio melódico de aves migratórias raras e ganhou um Emmy por seu documentário The Vanishing Dawn Chorus, que captura a cacofonia do amanhecer em seis continentes.

No entanto, o som que Hempton considera mais ameaçado é o silêncio.

Por que salvar o silêncio?

Foto: Eliot Stein/ BBC

Para Hempton, o silêncio não é a ausência de som, mas sim o silenciamento dos toques de celular, dos motores, das britadeiras. Ou seja, da poluição sonora produzida pelo homem.

Em um mundo tão barulhento, o idoso de 69 anos passou a maior parte da vida defendendo o silêncio.

Em 2021, ele lançou a Quiet Parks International (QPI), a primeira organização sem fins lucrativos que visa certificar e preservar as últimas paisagens sonoras naturais da Terra.

Com o turismo silencioso, Hempton espera mudar a forma como “vemos” o mundo e “salvar o silêncio em benefício de todas as vidas”.

O problema do barulho

Foto: Eliot Stein/ BBC

Mesmo que o barulho seja frequentemente tratado mais como algo incômodo, ele não é apenas irritante. Isso porque estudos apontam que ele pode estar prejudicando nossa saúde também.

De acordo com pesquisa feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS), os efeitos da exposição a longo prazo à poluição sonora ambiental incluem ataques cardíacos, aumento da pressão arterial, derrames, diabetes, demência e depressão, entre outras coisas. Eles podem ser responsáveis ​​pela perda de mais de 1 milhão de anos de saúde plena entre os europeus ocidentais.

Além disso, a Agência Europeia do Meio Ambiente descobriu que a poluição sonora ambiental contribui para 48 mil casos de doenças cardíacas e 12 mil mortes prematuras no continente a cada ano.

Efeitos no mundo natural

Foto: Chris Moore/Getty Images

Um relatório publicado na revista científica The Royal Society’s Biology Letters apontou que a poluição sonora ameaça a sobrevivência de mais de 100 espécies animais diferentes. Isso porque os animais dependem do som para encontrar um companheiro, migrar, caçar e evitar predadores.

Além disso, o barulho do trânsito eleva os batimentos cardíacos da lagarta da borboleta, assim como o ruído distante das estações de compressão de gás dificulta para as corujas localizarem suas presas.

Já os motores de neve elevam o hormônio do estresse em lobos e alces. O barulho afeta até mesmo embaixo d’água, onde o som viaja mais rápido e mais longe do que em terra, afetando diversas espécies de vida marinha, de acordo com uma revisão da literatura científica.

A importância de salvar o silêncio

Foto: Eliot Stein/ BBC

Hempton afirma que salvando o silêncio, você acaba salvando todo o resto. Isso porque paisagens sonoras saudáveis ​​sustentam ambientes saudáveis. O pesquisador aponta que quando começássemos a tratar o barulho como a trilha sonora das mudanças climáticas e a poluição sonora como poluição haverá efeitos positivos para todos os seres vivos, inclusive para os humanos.

No entanto, mesmo com as evidências indicando que o silêncio nos torna mais saudáveis ​​e a natureza nos deixa mais felizes, Hempton aponta que o número de lugares naturalmente quietos está “em rota de extinção que excede em muito a extinção de espécies”.

Nos últimos 50 anos, a população global mais que dobrou, o tráfego aéreo aumentou quase seis vezes entre 1980 e 2019. Além disso, aumentou a navegação e a estimativa é de que haverá mais de 2 bilhões de carros nas estradas em 2030, o que abafa a paisagem sonora natural.

“Em 1900, você tinha uma boa chance de encontrar paz e tranquilidade em cerca de 75% da área continental dos Estados Unidos. Em 2010, esse percentual era de 2%, e acontece um fenômeno semelhante em quase todos os lugares”, aponta Les Blomberg, diretor-executivo da Noise Pollution Clearinghouse, organização com sede em Vermont que estuda e chama a atenção para os efeitos negativos do ruído ambiental.

“O que realmente me preocupa é que, no século 21, faremos com o ar o que fizemos com a terra no século 20 e transformaremos cada bairro em um aeroporto e cada rua em uma pista para nossos drones. A ameaça de ruído está vindo de cima de nós, e não é Deus.”

O primeiro “Parque Selvagem Silencioso” do mundo

Foto: Mark Fox/Getty Images

Em 2019, a QPI certificou o primeiro “Parque Selvagem Silencioso” do mundo: uma área de cerca de 404 mil hectares da Floresta Amazônica que se estende pelo rio Zabalo, no nordeste do Equador. Devido à biodiversidade e a pouca atividade humana que Hempton a chamou de “obra-prima da natureza”.

O local é lar da nação indígena Cofán, de 1,2 mil pessoas. A área está cada vez mais sob ameaça de empresas que buscam extrair petróleo, mas os líderes locais esperam que o certificado da QPI ajude o povo indígena a defender sua terra, ao incentivar o ecoturismo tranquilo e contemplativo na floresta tropical.

Já em junho de 2020, a organização nomeou o Parque Nacional Yangmingshan de Taiwan — um espaço de 11.338 km², como seu primeiro Parque Urbano Silencioso.

Em julho de 2021, a QPI designou o Hampstead Heath, em Londres, como seu segundo Parque Urbano Silencioso, seguido por cinco reservas naturais em Estocolmo e a seu redor (Judarskogen, Hansta, Älvsjöskogen, Kyrkhamn e Sätraskogen).

Além disso, a QPI também está desenvolvendo Parques Marinhos Silenciosos e Trilhas Silenciosas.

Fonte: BBC

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