Você conhece imaginar como é não reconhecer o próprio rosto? É assim que funciona a mente de Carlotta, uma artista que possui prosopagnosia. Assim, Carlotta é incapaz de reconhecer rostos, seja o próprio rosto ou o de outras pessoas. Por isso, essa condição foi fundamental para seu trabalho enquanto artista. Isso porque, sem poder reconhecer os rostos, ela os desenha da maneira que imagina que são.

Em seu apartamento, Carlotta possui cerca de mil autorretratos, número do qual ela mesma não tem certeza. Dessa forma, em seu espaço, ela desenha em uma sala escura, que é iluminada apenas por algumas velas. Nessas condições, ela não precisa de luz para observar o próprio rosto, ao invés disso, ela utiliza do tato de uma mãos e, com a outra, traça as formas no papel.

Ela não reconhece os rostos de outras pessoas, nem o seu próprio

Publicidade
continue a leitura

Ao desenhar no escuro, Carlotta consegue retratar como ela imagina um rosto e não como ele, de fato, é, ou como dizem para ela que é um rosto. "É sempre uma surpresa quando vejo meus desenhos à luz do dia", afirma Carlotta. E claro, mesmo com tantos retratos, cada um é completamente diferente do outro. Nos autorretratos, as formas se sobrepõem e podem encontrar várias cabeças, umas sobre as outras. Em algumas imagens, há mais dois olhos, por exemplo, alguns possuem três e outros, até seis.

Quando Carlotta olha para o espelho, ela enxerga uma pessoa, mas não consegue perceber que essa é ela. "A mulher que está olhando para mim está de camisola e no meu apartamento, então deve ser eu", afirma Carlotta. "Quando eu fazia compras com minha mãe ou ia ao consultório do médico, encontrávamos pessoas que minha mãe claramente reconhecia, mas eu não fazia ideia de quem eram", completa.

Carlotta demorou muito para reconhecer a existência da condição

Publicidade
continue a leitura

Na infância, Carlotta nunca percebeu que havia algo de diferente com ela. "Fiquei surpresa que minha mãe pudesse fazer isso. Achei que era um dom incrível que ela tinha, de reconhecer outras pessoas", afirma Carlotta. "Pensei que provavelmente fosse um problema comigo, que não estava me concentrando o suficiente", completa.

Somente na escola, ela percebeu que realmente algo estava acontecendo. Ela sofreu bullying e foi ridicularizada por professores e alunos. Por isso, deixou a escola aos 17 anos. Desde então, buscou trabalhos nos quais tivesse pouco ou nenhum contato com outros humanos. Assim, somente aos 40 anos descobriu a condição. "Foi o momento mais extraordinário, porque representou a liberação de todos os meus fardos. Para finalmente ter um nome para essa coisa, e poder dizer: 'Não sou burra. Não é que eu não esteja me concentrando bem. É uma condição genética, e eu não posso fazer nada sobre isso'.", afirma Carlotta.

Publicidade
continue a leitura

Nesse momento de sua vida, Carlotta gostaria de ter explicado o que ela tinha para seus pais, mas eles não estavam mais vivos.  Dessa forma, uma nova revelação veio quando Carlotta descobriu que poderia desenhar autorretratos tocando em seu rosto. "A arte foi definitivamente catártica para mim — sem ela, eu não estaria onde estou agora", afirma Carlotta. "Posso olhar para trás de forma diferente agora, sendo mais compreensiva com meus professores e meus pais. Sei que eles não tinham como saber sobre isso", completa.

De toda forma, Carlotta espera que atualmente, e no futuro, esse tipo de condição seja melhor trabalhada por pais e educadores. "Espero que os professores de hoje sejam um pouco melhores em entender as crianças e, muitas vezes, há psicólogos nas escolas que podem identificar esses problemas, mas estou falando de quando eu estava na escola há 50 anos, e os professores eram completamente indiferentes ao que estava acontecendo comigo", afirma a artista.

Publicado em: 08/09/20 15h34