Mudanças nos papéis de gênero e o medo de relações tóxicas influenciam os relacionamentos atuais. Foto: Divulgação.

Heteropessimismo: por que mulheres temem relações tóxicas e homens o cancelamento?

O amor entre homens e mulheres parece atravessar uma fase de desconfiança. De um lado, muitas mulheres dizem temer relações tóxicas e procuram identificar sinais de abuso antes de se envolver. Do outro, alguns homens relatam receio de serem julgados ou até “cancelados” durante uma aproximação.

Mudanças nos papéis de gênero e o medo de relações tóxicas influenciam os relacionamentos atuais. Foto: Divulgação.

Mudanças nos papéis de gênero e o medo de relações tóxicas influenciam os relacionamentos atuais. Foto: Divulgação.

Esse cenário ganhou um nome: heteropessimismo. O termo descreve uma visão mais pessimista sobre relacionamentos heterossexuais e aparece em um momento no qual expectativas amorosas, papéis de gênero e limites pessoais passam por mudanças.

O que é heteropessimismo?

O conceito ganhou espaço nas discussões sobre relacionamentos e comportamento. A ideia parte da percepção de que homens e mulheres heterossexuais estariam encontrando mais dificuldades para construir relações afetivas.

A psicóloga Denise Figueiredo, cofundadora do Instituto do Casal, identifica um sentimento de desamparo entre homens e mulheres. Segundo ela, muitas relações passaram a enfrentar uma espécie de disputa para definir quem está certo, em vez de buscar um caminho construído pelos dois.

Nesse contexto, cada pessoa pode chegar a um relacionamento com uma lista extensa de expectativas, limites e características consideradas indispensáveis. O problema aparece quando essa rigidez deixa pouco espaço para negociação e adaptação.

Mulheres temem relações tóxicas

A preocupação feminina com relacionamentos abusivos ganhou força nos últimos anos. Mulheres passaram a discutir mais temas como machismo, violência psicológica, narcisismo e outros comportamentos considerados sinais de alerta.

Para a psicanalista e pesquisadora Carol Tilkian, esse movimento também pode criar um estado permanente de vigilância. A pessoa começa a procurar possíveis “red flags” para evitar sofrimento, perder tempo ou repetir experiências negativas.

Essa cautela pode levar a conclusões rápidas. Um homem demora alguns dias para responder uma mensagem, por exemplo, e a mulher pode interpretar imediatamente o comportamento como falta de interesse ou envolvimento com outra pessoa. Da mesma forma, um comentário inadequado pode fazer com que alguém seja classificado rapidamente como machista.

Homens relatam medo de cancelamento

Do outro lado, alguns homens afirmam sentir dificuldade para entender quais comportamentos são aceitáveis durante uma aproximação.

O empresário Eduardo Ferreira de Almeida, de 44 anos, contou ao UOL que percebe mudanças provocadas pelo aumento da autonomia feminina. Ele considera positivo esse processo, mas afirma que alguns homens podem se sentir intimidados.

A pesquisadora Carol Tilkian também observa um movimento de retração masculina. Segundo ela, alguns homens evitam investir em relacionamentos por medo de receber rótulos como “narcisista” ou “love bomber” caso mudem de ideia depois.

Esse receio pode produzir um comportamento defensivo. Em vez de demonstrar interesse e descobrir naturalmente o que a relação pode se tornar, alguns homens já começam a interação estabelecendo limites rígidos para evitar cobranças futuras.

Brasileiros estão mais pessimistas com o amor

Pesquisas recentes citadas pelo UOL reforçam essa percepção. Na pesquisa “Narrativas Afetivas”, realizada pelas psicanalistas Carol Tilkian e Camila Holpert, quase 46% das publicações analisadas sobre amor estavam associadas a sentimentos negativos, como tristeza e medo.

Outro levantamento, chamado “Raio-X da Vida Afetiva”, apontou que o maior medo nas relações é não ser suficiente.

Para Carol Tilkian, a sociedade passou a consumir muitas histórias negativas sobre relacionamentos. Com isso, as pessoas podem desenvolver uma postura de proteção constante, tentando identificar antecipadamente qualquer sinal de sofrimento.

O crescimento do “boy sober”

O heteropessimismo também se relaciona ao movimento conhecido como “boy sober”, expressão usada para descrever mulheres que optam por reduzir ou abandonar relacionamentos com homens.

A proposta ganhou espaço principalmente nas redes sociais, onde experiências ruins e relatos sobre relacionamentos abusivos circulam rapidamente. Para algumas mulheres, ficar solteira representa uma forma de preservar a própria tranquilidade e evitar situações que consideram prejudiciais.

Carol Tilkian, porém, alerta que transformar todos os homens em adversários também pode criar um problema. Afinal, para uma mulher heterossexual que deseja se relacionar, enxergar o outro sexo como um inimigo permanente torna a aproximação ainda mais difícil.

Independência também muda a dinâmica dos relacionamentos

A transformação dos papéis dentro das relações também influencia esse cenário.

A contadora Margarete Licursi, de 42 anos, contou que a própria independência já dificultou sua disposição para abrir espaço e adaptar hábitos em uma relação. Com mais maturidade e terapia, ela afirma que passou a trabalhar essas questões.

Além disso, o aumento da autonomia feminina modifica expectativas antigas sobre casamento, divisão de tarefas e comportamento dentro de uma relação. Mulheres que antes dependiam financeiramente ou socialmente de um parceiro agora podem estabelecer limites e encerrar relações que não consideram satisfatórias.

Essa mudança amplia a liberdade de escolha, mas também exige que homens e mulheres aprendam novas formas de negociar expectativas.

O desafio é construir um “terceiro jeito”

Para Denise Figueiredo, relacionamentos saudáveis não precisam seguir exatamente a vontade de uma das pessoas. O caminho mais equilibrado surge quando o casal consegue construir uma dinâmica própria.

Isso exige reconhecer quais valores são realmente inegociáveis e, ao mesmo tempo, aceitar que nenhum parceiro corresponde perfeitamente às expectativas do outro.

A especialista também aponta que a sociedade atual estimula trocas rápidas. Assim como consumidores substituem produtos quando encontram algo que não corresponde às expectativas, algumas pessoas podem aplicar a mesma lógica aos relacionamentos.

Quando qualquer dificuldade vira motivo para desistência, o casal perde a oportunidade de atravessar conflitos e descobrir novas formas de convivência.

Ainda existe espaço para acreditar no amor

Apesar do crescimento do heteropessimismo, os especialistas ouvidos pelo UOL não consideram que as pessoas tenham desistido do amor.

Para Carol Tilkian, a maioria continua aberta à possibilidade de se relacionar. O problema está no acúmulo de experiências negativas e no medo de sofrer novamente.

Nesse cenário, construir relações pode exigir mais disposição para conversar, negociar diferenças e aceitar imperfeições. Ao mesmo tempo, reconhecer sinais reais de abuso continua sendo fundamental.

O desafio está justamente em encontrar equilíbrio: proteger-se de relações prejudiciais sem transformar toda aproximação em uma ameaça.

Fonte: UOL

Seguir
Buscar
Carregando

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...