
E se eu te contar que o Nobel de Literatura de 2025 foi para um escritor cuja obra mais famosa rendeu um filme de mais de sete horas? O premiado é o húngaro László Krasznahorkai, celebrado pela Academia Sueca por um conjunto “visionário e contundente” que reforça o poder da arte em tempos sombrios. Críticos há anos o chamam de “mestre do apocalipse” e não é exagero, é apelido endossado por gente grande.
O livro que colocou seu nome no mapa foi Sátántangó (1985), ponto de partida de uma parceria longuíssima com o diretor Béla Tarr. O romance virou filme em 1994, todo em preto e branco, clima hipnótico, e longos planos que parecem alongar o tempo. Quanto dura? Segura: 439 minutos. Sim, 7h19. Uma experiência estética, quase um transe.
Krasznahorkai escreve frases longas, labirínticas, que carregam a gente pelos becos de vilas decadentes, fazendas coletivas, personagens à beira do colapso. Tarr pega essa energia e transforma em imagem: planos-sequência extensos, passos lentos, chuva persistente. É como se a câmera respirasse junto com o texto. Resultado: um cinema que exige calma e recompensa com uma imersão rara.
Sabe aquela pressa do streaming, do botão “pular introdução”? Aqui não cola. Em Sátántangó, a gaita de Mihály Víg marca o compasso de uma comunidade rural que vê na volta de um suposto “salvador” a chance de fugir do próprio destino. É Kafka? É Beckett? É Krasznahorkai puro, só que em video.
Krasznahorkai e Tarr trabalharam várias vezes juntos, cada encontro abrindo um novo flanco da mesma paisagem: gente tentando encontrar sentido em ruínas.
Baseado no romance A Melancolia da Resistência (1989), o filme Werckmeister Harmonies (2000/2001) segue um jovem que observa, quase impotente, a chegada de um circo à sua cidade. Entre uma gigantesca carcaça de baleia e a figura de um tal “Príncipe”, o que se instala é um mal-estar coletivo, desses que se espalham como frio no osso. O longa é adaptação direta do livro e virou clássico cult, 145 minutos em preto e branco, 39 planos que parecem coreografias da dissolução social.
Aqui, a dupla muda a chave. O ponto de partida é Georges Simenon, não Krasznahorkai. Mesmo assim, o escritor assina o roteiro com Tarr: The Man from London (2007), um noir existencial sobre um ferroviário que testemunha um crime e encontra uma mala de dinheiro, com Tilda Swinton no elenco. É a prova de que, mesmo com material alheio, o clima Tarr/Krasznahorkai permanece: silencioso, pesado, hipnótico.
Inspirado no episódio famoso da vida de Nietzsche (o filósofo teria abraçado um cavalo açoitado em Turim), The Turin Horse (2011) é um filme sobre o fim, não um boom apocalíptico, mas um escurecer contínuo. A rotina de um camponês e sua filha vai ficando mais seca, mais silenciosa, mais curta. O longa levou o Grande Prêmio do Júri em Berlim e foi anunciado à época como “o último” de Tarr.
De colapsos, pequenos e grandes. De comunidades que tentam sobreviver a promessas vazias. De personagens que, às vezes, se movem como se dançassem um tango com o próprio destino: um passo pra frente, dois pra trás. Em Sátántangó, há um coletivo rural desmanchando em lama moral e meteorológica; em A Melancolia da Resistência, o rumor se torna revolta, e a baleia estacionada no centro da cidade vira símbolo de tudo que é pesado demais para ser ignorado.
Krasznahorkai gosta do intervalo entre um mundo que desaba e outro que ainda não nasceu. E é justamente nesse intervalo que o cinema de Tarr encontra fôlego: a câmera olha para quem não costuma ter close.
A sensação de viver à beira não é exclusividade do Leste Europeu pós-comunista. O Nobel de 2025 aponta um autor que lê os abismos do nosso tempo com prosa densa, humor negro e um certo encantamento pelo fim que se arrasta. Somando: o prêmio também joga luz sobre um cinema que muita gente ainda não se permitiu ver e que, paradoxalmente, pede tempo num mundo que não tem tempo pra nada.





