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Múmia de criança fez parte de um ritual e consumiu drogas psicodélicas

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Milhares de anos atrás, uma criança no Peru foi sacrificada como parte de um ritual. A cabeça dela foi cortada e transformada em uma espécie de troféu. 

Uma nova análise de um único cabelo arrancado do crânio da múmia concluiu que a criança consumiu um cacto psicoativo antes de ser sacrificada, como parte da cerimônia.

A cabeça preservada da criança era um dos 22 restos humanos associados à antiga sociedade de Nazca examinados em um estudo que será publicado na edição de dezembro de 2022 do Journal of Archeological Science.

Todos os indivíduos encontrados viveram durante a era pré-hispânica (3500 a.C a 476 d.C) e foram enterrados perto da costa sul do Peru. O local foi escavado durante o Projeto Nazca, um programa arqueológico de longa duração que iniciou em 1982.

Apesar de ainda não saber o sexo e a idade da criança, eles informaram que a criança havia ingerido o cacto San Pedro (Echinopsis pachanoi ), uma planta espinhosa tomada por suas “fortes propriedades alucinógenas”. Ela era usada por indígenas das Américas em cerimonias tradicionais e como medicamentos.

“A cabeça do troféu é o primeiro caso de consumo de San Pedro por um indivíduo que vive na costa sul do Peru”, disse ao Live a principal autora do estudo, Dagmara Socha, doutoranda no Centro de Estudos Andinos da Universidade de Varsóvia, na Polônia.

Ela acrescentou que essa é a “primeira evidência de que algumas das vítimas que foram transformadas em cabeças de troféu receberam estimulantes antes de morrerem”.

O estudo

Foto: Dagmara Socha

Durante a pesquisa, Socha e sua equipe coletaram amostras de cabelos individuais de quatro cabeças de troféu, três delas eram de adultos. Também estudaram 18 múmias de adultos e crianças. 

De acordo com o portal Science Alert, exames toxicológicos apontaram que vários dos indivíduos falecidos haviam consumido alguma planta psicoativa ou estimulante antes de suas mortes.

Entre os itens ingeridos estão folhas de coca, conhecida como fonte da substância psicoativa cocaína, assim como o cacto San Pedro, que contém mescalina, uma droga psicodélica.

Além disso, os pesquisadores detectaram vestígios de Banisteriopsis caapi, o principal composto da ayahuasca, uma bebida alucinógena. “Foi muito interessante ver quantas pessoas tiveram acesso a [essas plantas]”, disse Socha.

“Também queríamos descobrir a rota do comércio de algumas dessas plantas antigas. Por exemplo, as folhas de coca não eram cultivadas na costa sul do Peru, então elas tinham que ser trazidas do norte do Peru ou da região amazônica.”

O começo do uso de drogas

Foto: Olhar Digital

De acordo com os pesquisadores, o começo do uso dessas drogas datava entre 100 a.C a 450 anos d.C. “Podemos ver que essa transição das plantas começou cedo e podemos rastrear a rede de comércio”, disse Socha.

Socha acrescenta que a pesquisa aponta que essas plantas foram muito importantes para diferentes culturas, pelos efeitos medicinais e ritualísticos.

“Especialmente porque não há [registro escrito] desse período de tempo, então o que sabemos sobre Nazca e outras culturas próximas é de investigações arqueológicas.”

Desses anos antes do estudo de Socha, Rainer Bussmann, professor de Etnobiologia, publicou um estudo no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine examinando o uso de plantas medicinais por comunidades indígenas no norte do Peru.

Assim como Socha, ele estudou as rotas comerciais de várias plantas cultivadas neste local. “Sempre houve um pequeno comércio acontecendo nesta região, com plantas sendo comercializadas da Amazônia para cima e para baixo na costa [peruana]”, disse Bussmann, que não estava envolvido no novo estudo, à Live Science.

O especialista afirma que as plantas eram usadas para fins cerimoniais ou medicinais, que às vezes eram combinados. “Nunca vi nenhum relato de uso recreativo. Para essas culturas, sempre havia um propósito específico.”

O consumo das plantas na cultura Nazca

Foto: Getty Images/ BBC

Apesar de as evidências sugerirem que essas plantas eram consumidas como remédios e para cerimônias, os cientistas afirmam que ainda existem dúvidas sobre o quão difundido era o consumo na cultura Nazca

“Na verdade, não sabemos com que frequência essas [plantas] estavam sendo usadas”, disse explica Socha. “No caso de San Pedro, não está bem preservado em um contexto arqueológico. Já no caso das folhas de coca e Banisteriopsis caapi, nunca foram encontradas crescendo nesta região durante esse período.”

Além dos restos humanos, Socha e sua equipe encontraram diversos objetos. Entre eles estão tecidos, potes de cerâmica, ferramentas de tecelagem e uma bolsa para carregar as filhas da coca.

Fonte: Science Alert

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