Certamente você já ouviu falar sobre o regime extremamente autoritário na qual os norte coreanos precisam literalmente, sobreviver. O país que é liderado por Kim Jong-un possui uma série de restrições e impede que sua população tenha liberdade de expressão. Já escrevemos algumas matérias a respeito, e você pode querer conferir 7 maneiras insanas de fugir da Coreia do Norte ou ainda Como funcionam as prisões na Coréia do Norte?

Mas você já parou para imaginar como funciona a educação na Coreia do Norte? Como funcionam as universidades? Pare por um momento pra tentar imaginar como isso pode funcionar... Certamente não é capaz de chegar nem perto da realidade. Suki Kim é uma jornalista que nasceu e passou boa parte de sua vida na Coréia do Sul. Ela conseguiu arrumar um emprego como professora de inglês, no ano de 2011, na então recém-instaurada Universidade para a Ciência e Tecnologia de Pyongyang (PUST), na Coréia do Norte, onde estudavam apenas os filhos de homens da elite do país.

Kim sempre teve vontade de morar na Coreia do Norte, mas não pelos motivos que normalmente queremos sair de nosso país. De acordo com ela, sempre passava pequenas temporadas por lá, mas nunca havia de fato conseguido uma forma de ficar no país. Seu interesse era profissional, visto que se sentia frustrada por ser uma jornalista e sempre ouvir falar das atrocidades cometidas pelo regime do país, mas nunca entender o que realmente a população era obrigada a enfrentar. Mas também tinha um interesse muito pessoal, já que em 1950 durante a guerra das Coreias, sua família acabou sendo separada.

A guerra e a divisão da península que aconteceu mais tarde, separaram milhões de coreanos fazendo com que muitos nunca mais tivessem a oportunidade de se encontrar novamente, e foi exatamente o que aconteceu na família da jornalista. Um dos tios dela acabou ficando preso do lado norte, fazendo com que sua avó nunca voltasse a vê-lo, sendo que o mesmo aconteceu com os primos do pai dela.

Ela conta que a avó nunca perdeu as esperanças de reencontrar o filho, mas que literalmente, morreu de tanto esperar por este dia. A distância entre as capitais da Coreia do Norte e do Sul é bem pequena, levando apenas duas horas de carro, porém, quando traçaram a linha que dividia a península, no ano de 1953, as pessoas que estavam ao norte nunca mais voltaram a encontrar seus parentes.

Depois de sentir na pele a aflição da avó e ver como a situação impactou negativamente em suas vidas, a jovem desenvolveu uma certa obsessão em descobrir como as pessoas viviam no país. Foi a partir daí que ela começou a buscar formas para conseguir entrar na Coreia do Norte de uma vez por todas. Durante 10 anos fez pesquisas sobre a história do país e conta ainda que falou com mais cem desertores que estavam morando em países próximos, a exemplo da China, Laos, Mongólia e Tailândia.

Depois de muitas tentativas finalmente conseguiu ingressar como professora na universidade, que é a única privada da Coreia do Norte. Curiosamente, a instituição de ensino foi fundada por grupos evangélicos originários de vários países, mas como bem sabemos, possuir uma religião no país é algo totalmente proibido, sendo que o único a ser venerado deve ser o líder do lugar.

Acontece que esses grupos conseguiram fazer um acordo com o governo norte coreano, onde se comprometeram a não falar e nem pregar religião, apenas serviriam para bancar a construção da universidade e mantê-la, mas, de acordo com a jornalista, a intenção é que isso não se estenda por muito tempo.

Kim conta que tudo que os professores lecionam em sala de aula precisa ser gravado. O conteúdo que precisam transmitir para os alunos precisa ser aprovado pelo governo, sem contar que é ele que também decide tudo acerca da vida do estudante, incluindo que curso irá fazer, em que escola irá estudar e até mesmo as atividades que irá desenvolver.

Não existe a possibilidade de se negar a fazer algo, ou mudar o destino. No período em que atuou como professora, vivia sob medo constante. Dava aulas de inglês para 2 turmas, que continham aproximadamente 50 alunos cada, com idades entre 19 e 20 anos.

Toda a universidade é vigiada por militares que não permitem que ninguém saia do ambiente. O mais chocante ainda está por vir... O governo organiza escoltas que devem sempre vigiar os professores, 24 horas por dia, não os deixando em paz nem mesmo na hora de dormir. Kim passava seus dias aterrorizada principalmente porque estava escrevendo um livro, relatando todas as situações pesadas que era obrigada a viver e presenciar, tomando nota de absolutamente tudo, e sabia que ninguém nunca havia feito algo parecido no país.

Os quartos em que os professores ficam possuem microfones escondidos, portanto, o medo de que sua escolta escutasse algo anormal e encontrasse seus escritos era gigante. Ela mantinha suas memórias em um dispositivo USB que sempre carregava consigo, tomando o máximo de cuidado possível para que nenhum vestígio ficasse em seu computador, pois não poderia correr o risco de que alguém invadisse seus dados.

Ao ser questionada sobre o que pensava a respeito de seus alunos, ela diz que é algo muito difícil de ser explicado. Assim como os professores, eles eram vigiados de forma constante e talvez fosse até pior: não podiam confiar uns nos outros. Além de estudar, uma das outras funções de cada estudante encontrado ali era vigiar os outros e informar sobre o professor. Toda semana faziam uma reunião para relatar informações sobre colegas ou seus mestres.

São tratados da mesma forma que os soldados, sendo que sempre fazem tudo em grupo, não permanecendo por momento algum sozinhos. Costumavam marchar em grupo para honrar o "Grande Líder", sendo doutrinados sobre seu enorme poder e declarando ódio aos Estados Unidos. Por outro lado, ela conta que sentia grande afeto por seus alunos, pois pareciam crianças curiosas, embora todos tivessem mais que 18 anos. Sempre se mostravam muito enérgicos, faziam piadas e falavam sobre garotas, o que é importante mencionar, pois esta é uma característica humana que o regime autoritário do país não consegue controlar.

Podemos nos fazer inúmeras perguntas para tentar decifrar o que acontece na Coreia do Norte, mas o que será que eles pensam a respeito do restante do mundo? Bom, a questão é que eles são completamente proibidos de expressão qualquer tipo de curiosidade em relação ao mundo exterior, é um tipo de pressão psicológica feita cotidianamente, e os professores tem ordens para não responder perguntas sobre outros países, e para não fazer comentários sobre como é viver lá fora.

Em pleno ano de 2011, os estudantes ali presentes nunca tinham escutado falar sobre internet... Não sabiam do que se tratava e também nenhum professor poderia mencionar a palavra em sala de aula. Ninguém conhecia a Torre Eiffel e certamente, nunca saberiam quem foi Michael Jackson.

Ainda de acordo com a jornalista: "A televisão na Coreia do Norte tem apenas um canal com programas sobre o Grande Líder. Também são transmitidos programas da China ou da Rússia, todos baseados nos "ideais socialistas" ". Toda a rotina fora das aulas e os tipos de entretenimento disponibilizados para os alunos eram baseados em honrar a filosofia do sistema, vez ou outra é que jogavam basquete ou futebol.

É importante lembrar que todo esse controle é aplicado aos filhos de grandes líderes do país, mas acontecem coisas até piores com os "estudantes normais". Kim menciona que o controle é algo muito forte no país e que não existe liberdade para absolutamente nada. Depois de finalizar sua investigação, escreveu o livro intitulado de "Without You, There Is No Us: My Time with the Sons of North Korea's Elite" (Sem você, não há nós: meu tempo com os filhos da elite norte-coreana), onde conta todos os absurdos aqui relatados. A realidade do país é algo centenas de vezes pior do que somos capazes de imaginar...

E então pessoal, o que acharam? Compartilhem suas ideias com a gente pelos comentários!

Publicado em: 24/08/17 19h12