O Japão chama atenção por uma característica que surpreende muitos visitantes: mesmo em grandes cidades, é comum encontrar ruas extremamente limpas apesar da pouca quantidade de lixeiras públicas.
Distrito comercial em Tóquio. REUTERS/Kim Kyung-Hoon
À primeira vista, parece uma contradição. Afinal, se quase não existem lixeiras nas ruas, onde as pessoas jogam o lixo? A resposta está em uma combinação de hábitos culturais, responsabilidade individual e mudanças adotadas ao longo das últimas décadas.
A ausência de lixeiras não significa que o Japão não tenha um sistema de coleta de resíduos. Pelo contrário. O país possui uma cultura bastante rígida em relação ao descarte e à organização do lixo.
Desde cedo, os japoneses aprendem que cada pessoa deve cuidar do espaço que utiliza. Nas escolas, por exemplo, os próprios estudantes participam rotineiramente da limpeza dos ambientes. Dessa forma, a ideia de que manter os espaços limpos é uma responsabilidade coletiva começa ainda na infância.
Por isso, quem compra uma bebida, um lanche ou outro produto na rua geralmente já considera que precisará carregar a embalagem até encontrar um local adequado para descartá-la ou até voltar para casa.
Durante muito tempo, esse modelo funcionou de maneira natural para a população local. No entanto, o crescimento acelerado do turismo internacional trouxe um novo desafio.
Milhões de visitantes chegam ao país acostumados a consumir alimentos e bebidas enquanto caminham e, consequentemente, esperam encontrar lixeiras públicas pelo caminho. No Japão, porém, essa infraestrutura é muito mais limitada.
O resultado é curioso: turistas podem passar longos períodos carregando garrafas, copos e embalagens dentro de mochilas, sacolas ou até mesmo nas mãos enquanto procuram um lugar adequado para descartar o lixo. A falta de lixeiras chegou a ser apontada como uma das principais dificuldades enfrentadas por visitantes no país.
A diferença cultural vai além do descarte de resíduos. Em várias partes do Japão, comer enquanto caminha é considerado inadequado e, em alguns locais, existem inclusive restrições para esse comportamento.
A lógica é simples: se a pessoa compra uma comida para levar, a ideia tradicional é consumi-la em um local apropriado, como dentro do estabelecimento, em uma área específica ou depois de chegar ao destino.
Assim, menos pessoas precisam de uma lixeira pública imediatamente depois de terminar uma refeição.
Existe ainda outro motivo importante para a redução das lixeiras em espaços públicos japoneses.
Depois do atentado com gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995, muitas lixeiras foram retiradas de estações e áreas movimentadas por razões de segurança. O receio era que esses recipientes pudessem ser utilizados para esconder objetos perigosos.
Desde então, a presença de lixeiras permaneceu bastante limitada em determinadas áreas. Algumas das poucas estruturas existentes também adotam soluções que permitem maior visibilidade do conteúdo.
O modelo tradicional, entretanto, enfrenta uma nova pressão. O crescimento do turismo fez com que algumas regiões precisassem buscar alternativas para lidar com o aumento da quantidade de resíduos produzidos por visitantes.
Em áreas com grande concentração de turistas, começaram a aparecer lixeiras chamadas de inteligentes, equipadas em alguns casos com sensores, sistemas de compactação e informações em diferentes idiomas.
Ainda assim, a lógica principal continua sendo a mesma: quem produz o lixo deve assumir a responsabilidade por ele.
A grande peculiaridade do Japão, portanto, não está simplesmente na ausência de lixeiras. O mais importante é a cultura construída ao redor do descarte.
As ruas permanecem limpas porque boa parte da população não entende que a existência de uma lixeira é uma autorização para deixar resíduos em qualquer lugar. Pelo contrário, carregar o próprio lixo até encontrar um local adequado faz parte do comportamento esperado.
Esse modelo também ajuda a explicar por que a limpeza das cidades japonesas impressiona tantos visitantes. A responsabilidade pelo espaço público não fica apenas nas mãos dos serviços de limpeza. Ela começa com cada pessoa.
O crescimento do turismo, porém, está colocando esse sistema à prova. Agora, o Japão precisa encontrar um equilíbrio entre preservar seus hábitos tradicionais e oferecer infraestrutura suficiente para receber milhões de visitantes que não cresceram dentro dessa mesma cultura.
Fonte: Xataka Brasil






