O buraco negro mais perto da Terra pode não ser um buraco negro de verdade

Avatar for Bruno DiasBruno DiasCuriosidadesoutubro 22, 2020

Os buracos negros estão entre as coisas mais curiosas de todo o universo. Trata-se de coisas completamente invisíveis. A força gravitacional é tão imensa que nada escapa desses buracos, incluindo a radiação eletromagnética, como raios-X, infravermelho, luz e ondas de rádio.

E no começo desse ano, um objeto identificado como sendo o buraco negro mais perto da Terra pode não ser na verdade um buraco negro. Equipes diferentes de cientistas reanalisaram os dados a respeito dessa descoberta e concluíram que o sistema em questão, chamado “HR 6819”, não inclui nele um buraco negro.

Ao invés disso, eles descobriram que o sistema é na verdade duas estrelas com uma órbita binária. Isso é uma coisa bem incomum e faz com que o sistema seja difícil de ser interpretado.

O HR 6819 fica a aproximadamente 1.120 anos-luz de distância, e já faz algum tempo que ele é um verdadeiro quebra-cabeças. A priori, era pensado que era uma estrela única do tipo espectral Be.

Esse tipo é uma estrela quente e branco-azulada, cujo o espectro tem uma forte linha de emissão de hidrogênio que é interpretada como evidência de um disco de gás circunstelar ejetado pela estrela enquanto ela gira.

Estudo

Os astrônomos viram, na década de 1980, que o objeto parecia ter a assinatura de luz de um segundo tipo de estrela do tipo B. No caso, uma estrela B3 III. Em 2003, isso foi descoberto para significar que o HR 6819 não era uma, mas sim, duas estrelas. E isso, mesmo que elas não pudessem ser resolvidas individualmente.

No entanto, essa não era a única interpretação. E astrônomos fizeram cálculos para analisar as possibilidades dessas estrelas.

“A presença de um componente estrela Be no espectro de HR 6819 sugere outra interpretação do sistema. É possível que o componente estelar B3 III seja, na verdade, uma estrela de baixa massa, despojada, que ainda é relativamente jovem e luminosa. Nesse caso, a estrela Be seria a companheira do binário de 40 dias em vez de um buraco negro“, escreveram os astrônomos Douglas Gies e Luqian Wang, da Georgia State University, em seu artigo.

Ou seja, a estrela B3 III, que tem uma massa mais baixa, iria girar em torno da estrela Be. Se esse fosse realmente o caso, o movimento orbital poderia ser detectado no gás de hidrogênio ao redor da estrela Be.

Eles fizeram estudos cuidadosos e viram que o disco de hidrogênio ao redor da estrela Be realmente tinha uma periodicidade de 40 dias. Isso foi consistente com a órbita da estrela B3 III. Coisa que é esperada de um sistema binário de massa desigual.

“Isso indica que HR 6819 é um sistema binário que consiste em uma estrela Be massiva e uma companheira de baixa massa que é o remanescente despojado de uma estrela doadora de massa anterior em um binário de transferência de massa”, explicaram.

Novas interpretações

Em um outro artigo, feito pelos astrônomos Kareem El-Badry e Eliot Quataert, da UC Berkeley, eles também analisaram, de forma independente, os espectros desse sistema. Com isso, obtiveram massas de 0,47 e 6,7 massas solares para as estrelas B3 III e B3, respectivamente.

“Nós argumentamos que a estrela B é uma estrela de hélio inchada e recentemente despojada com massa ≈ 0,5 massas solares que atualmente está se contraindo para se tornar um subanão quente. O movimento orbital da estrela Be elimina a necessidade de um buraco negro para explicar o movimento da estrela B. Um modelo de estrela despojada reproduz a luminosidade observada do sistema, enquanto uma estrela normal com a temperatura e gravidade da estrela B seria mais do que 10 vezes luminoso demais”, escreveram.

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