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Oscar Wilde e a cultura do cancelamento

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De acordo com o Dictionary.com, “a cultura do cancelamento refere-se às atitudes e valores compartilhados dentro de um segmento específico da sociedade que levam à rejeição pública de pessoas ou grupos específicos”.

Nos últimos anos, vimos celebridades caírem em desgraça por tudo e, claro, por causa nada. Embora hoje pareça que uma celebridade é “cancelada” a cada dois dias, é preciso frisar que o fenômeno não é novo.

Antes dos usuários das redes sociais transformarem Taylor Swift no que é hoje ou as Dixie Chicks derrubarem George W. Bush, Oscar Wilde, o poeta irlandês, dramaturgo e mestre do humorismo, cujas excentricidades visavam cessar a sede de atenção, já havia vivido tudo isso.

Infância

O caminho que Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde percorreu – tanto para a fama quanto para o sucesso – foi traçado por seus pais anglo-irlandeses, que eram ambos independentemente proeminentes na sociedade de Dublin.

Seu pai, Sir William Wilde, foi nomeado cavaleiro por ter sido um dos cirurgiões e filantropos mais renomados da Irlanda. Sua mãe, Jane, uma fervorosa nacionalista irlandesa, foi poeta e suas obras, todas escritas sob o pseudônimo de “Speranza”, foram para apoiar o levante irlandês de 1848.

O talento de Wilde para o exagero foi, sem dúvida, herdado de sua mãe, que era conhecida por sempre fazer alegações infundadas, como, por exemplo, ser descendente de Dante Alighieri.

Wilde era o segundo de três filhos. Seu irmão mais velho chamava-se Willie e sua irmã mais nova, Isola. A caçula morreu de meningite aos nove anos. Jane, desde que colocou os filhos no mundo, planejou minuciosamente o caminho de cada um, mas apenas Wilde atendeu suas expectativas – tanto que amava estar em meio à alta sociedade, principalmente nos saraus que eram promovidos em sua casa.

Escândalo

O primeiro escândalo que a família teve que lidar aconteceu enquanto Wilde estava na escola, décadas antes de sua queda pessoal. Em 1864, Mary Travers, paciente de William, começou a escrever panfletos atacando o casal. Ao que tudo indica, Mary e William mantiveram um caso e Jane era totalmente ciente. Mas os ataques só vieram à tona depois que a relação entre ambos esfriou.

Em meio ao caos, Jane, que rejeitava as pesadas palavras da amante de seu marido, expressou sua indignação escrevendo uma carta ao pai de Travers, que, por acaso, era colega de William. Travers não gostou do teor da carta e processou Jane.

Por conta dos status dos Wildes, o julgamento foi o assunto mais falado em toda a cidade. A equipe jurídica de Travers, ao buscar a simpatia do público, venceu o caso. Não só pela simpatia, mas também porque William se recusou a testemunhar.

Os Wildes, então, não encontraram outro caminho a não ser recuar rapidamente para o oeste da Irlanda.

Universidade

O casal Wilde garantiu que os filhos tivessem a melhor educação. Wilde, por exemplo, estudou na Portora Royal School, em Enniskillen, e, em seguida, ingressou na Trinity College, onde floresceu.

Durante o tempo em que esteve na universidade, Wilde se envolveu com poetas irlandeses – Edward Dowden e Arthur Palmer – e se estabeleceu como um defensor do esteticismo e proponente do socialismo como um membro vocal da Sociedade Filosófica da Universidade.

Por ser estudioso, talentoso e lingüista excepcional – com cinco línguas em seu currículo, embora nunca tenha aprendido uma única palavra do gaélico -,seus professores o incentivaram a se inscrever no Magdalen College, na Universidade de Oxford, onde continuou os estudos enquanto se envolvia ainda mais com a alta sociedade.

Depois de completar os estudos, Wilde voltou a Dublin. Ao retornar, ele se reconecta com sua paixão de infância, Florence Balcombe, com quem ele esperava se casar. Quando Balcombe optou por se casar com o criador do Drácula, Bram Stoker, Wilde deixou a Irlanda – retornando apenas mais vezes ao longo de sua vida.

Novos ares

Wilde, então, decide viver em Londres. Ali, utiliza sua rede de amigos aristocratas para se inserir em meio a alta sociedade, tornando-se conhecido por adotar uma moda extravagante. Frequentemente referido como a primeira pessoa a ser “famosa por ser famosa”, a inteligência e a boa natureza de Wilde fizeram com que todos o adorassem muito antes de contribuir com qualquer obra literária para o mundo.

Wilde era tão querido que inspirou a criação de Patience, um personagem da ópera de Gilbert e Sullivan, de 1881, que, basicamente, é uma sátira sobre o Movimento Estético que estava ganhando força na época por meio da premissa “arte pela arte”.

Em 1882, quando a obra começou a realizar uma turnê por todo os Estados Unidos, o produtor Richard D’Oyly Carte convidou Wilde para participar da viagem. Durante a turnê, o Wilde dava palestras antes do show, opondo-se veemente à literatura dickensiana e a ideia de escrever sobre política e religião.

Amor

Antes de partir para os Estados Unidos, Wilde conheceu Constance Lloyd, uma escritora infantil, filha de um advogado irlandês. Depois de dois anos de namoro, em que boa parte do tempo esteve fora, Wilde a pediu em casamento. Ambos se casaram em 1884 e tiveram dois filhos: Cyril e Vyvyan.

Quando Vyvyan nasceu, Wilde decide ter seu primeiro caso fora do casamento e, então, passa a se envolver intimamente com o jornalista canadense Robbie Ross. O caso foi um momento decisivo para Wilde, que começou a desfrutar abertamente da companhia de jovens, causando um escândalo social com frequentes demonstrações de afeto público – até hoje não está claro como sua esposa se sentia em relação aos afetos vividos por Wilde fora do casamento.

Durante o tempo em que esteve vivendo em Londres, Wilde trabalhou como revisor ​​para a Pall Mall Gazette e editor do Woman’s World. Em 1988, escreveu e publicou um livro infantil, chamado The Happy Prince and Other Tales .

Embora escrever histórias infantis fosse um grande passo para se distanciar do esteticismo, ele nunca deixou de zombar do narcisismo vitoriano em suas histórias.

Má decisão

Em 1891, Wilde tornou-se um escritor de sucesso – à época, lançou as obras O Príncipe Feliz e Outros Contos, Uma Casa de Romãs, Crime de Lord Arthur Savile e O Retrato de Dorian Gray .

No mesmo ano, ele se apaixonou por Lord Alfred “Bosie” Douglas, um estudante de Oxford de 21 anos. O relacionamento de quatro anos foi tumultuado, repleto de discussões, principalmente porque Douglas usava Wilde para conquistar fama e dinheiro. Douglas era volátil, egoísta e imprudente, mas Wilde sempre o amou.

Em 1894, Queensberry, pai de Douglas, suspeitou do relacionamento e confrontou Wilde. Em fevereiro de 1895, Wilde processa Queensberry. No tribunal, a sagacidade e o charme de Wilde se perde diante das evidências apresentadas por Queensberry e seus investigadores particulares, incluindo a prova de que Wilde contratava garotos de programa.

Wilde, então, perde o julgamento.

Saída

Wilde, derrotado, se vê na obrigação de fugir para a França ou ser preso. Em 6 de abril de 1895, o célebre poeta acaba eliminando a ideia de viver em território francês e vai preso. Dias depois, Wilde consegue um novo julgamento e por discutir belamente sobre o amor acaba recebendo inúmeros aplausos, mas, infelizmente, não conquista a liberdade. Mesmo sendo aplaudido, a imprensa passa a tratá-lo de uma forma horrível.

Passando quase 24 horas diariamente dentro da cela, Wilde escreveu inúmeras cartas para Douglas, que havia fugido do país temendo ter que seguir o mesmo destino. Em 1897, Wilde deixou a prisão.

O poeta passa, então, o resto de sua vida exilado em Paris, utilizando o pseudônimo Sebastian Melmoth, em homenagem a São Sebastião e personagem titular do romance de Charles Maturin, Melmoth, o Andarilho.

Seu último trabalho foi um ensaio chamado The Ballad of Reading Gaol, uma crítica contundente ao sistema de justiça vitoriano. No dia 30 de novembro de 1900, Wilde morre após contrair meningite.

Legado

Mesmo tendo sido cancelado pela sociedade inúmeras vezes, Wilde viveu todo seu e colocou seu talento em todos os seus livros. Foi, basicamente, um que marchou ao som de seu próprio tambor. Hoje, Wilde é considerado um dos escritores irlandeses mais prolíficos da história. Seus escritos e legado cultural continuam a impressionar e capacitar aqueles que são um pouco diferentes.

O poeta e mais de 50.000 outros homens condenados por serem homossexuais foram perdoados postumamente pelo governo do Reino Unido em 2017.

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