
Pesquisadores realizaram um amplo mapeamento da atividade gênica no córtex pré-frontal do cérebro para entender melhor os mecanismos relacionados ao envelhecimento e a doenças como Alzheimer, Parkinson e esquizofrenia.

Córtex pré-frontal é a parte frontal da camada externa do cérebro, localizada atrás da testa. Foto: Reuters
O trabalho analisou mais de 6,3 milhões de núcleos de células cerebrais de 1.494 doadores falecidos. As amostras incluíram pessoas desde a infância até os 108 anos e reuniram indivíduos sem diagnóstico de doença cerebral e participantes que tinham condições neurológicas ou psiquiátricas.
Os resultados foram publicados em setembro de 2026 na revista Nature, como parte de pesquisas realizadas pelo consórcio PsychAD, ligado à Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai, nos Estados Unidos.
O córtex pré-frontal fica na região frontal da camada externa do cérebro, atrás da testa. Essa área participa de funções como planejamento, tomada de decisões, regulação das emoções e adaptação do comportamento.
Além disso, a região sofre alterações associadas ao envelhecimento e está envolvida em diferentes condições neurodegenerativas e psiquiátricas. Por isso, compreender como seus diferentes tipos de células funcionam pode ajudar os pesquisadores a investigar melhor os mecanismos relacionados a essas doenças.
Para construir o mapa, os cientistas analisaram a atividade gênica em células de diferentes características. Entre elas estavam neurônios, células imunológicas, células associadas aos vasos sanguíneos e células de suporte responsáveis por ajudar na manutenção do funcionamento cerebral.
Os doadores incluíam pessoas com Alzheimer, Parkinson, demência com corpos de Lewy, demência vascular, esquizofrenia e transtorno bipolar, além de indivíduos sem diagnóstico de distúrbios cerebrais.
Essa diversidade permitiu comparar diferentes condições e também observar como a atividade dos genes muda durante as diferentes fases da vida.
Os pesquisadores encontraram semelhanças na atividade gênica relacionada a diferentes doenças. Alzheimer, Parkinson, demência com corpos de Lewy e demência vascular apresentaram características associadas ao desenvolvimento das células nervosas, à comunicação entre neurônios e à biologia dos vasos sanguíneos.
Além disso, os cientistas identificaram vias moleculares compartilhadas entre Alzheimer e Parkinson na micróglia, um tipo de célula imunológica que permanece no cérebro e participa de processos de defesa e manutenção do tecido nervoso.
Segundo Panos Roussos, diretor do Centro de Neurogenômica de Doenças do Mount Sinai e um dos líderes da pesquisa, essas informações podem ajudar a identificar quais células e processos biológicos merecem ser investigados em estudos futuros.
A comparação entre pessoas de diferentes idades também revelou mudanças importantes na atividade molecular do cérebro.
Durante o desenvolvimento, os pesquisadores observaram alterações extensas na atividade gênica. Depois, durante boa parte da vida adulta, muitos tipos celulares apresentaram relativa estabilidade. Na velhice, porém, novas mudanças apareceram, principalmente em células imunológicas e de suporte.
O estudo apontou aproximadamente os 24 anos como um possível ponto de transição para a estabilização de grande parte dos tipos celulares analisados. Isso não significa que o desenvolvimento cerebral termine exatamente nessa idade ou que o envelhecimento comece aos 24 anos. Segundo os pesquisadores, diferentes aspectos da biologia cerebral continuam mudando ao longo da vida.
Outro ponto analisado foi a relação entre fatores genéticos hereditários e diferentes tipos de células cerebrais. Os pesquisadores mapearam influências genéticas na atividade de mais de 14 mil genes.
A equipe também analisou os chamados ritmos biológicos diários. Em adultos jovens e de meia idade, os genes relacionados ao relógio biológico apresentaram padrões mais coordenados nos neurônios. Entre adultos mais velhos, esses padrões ficaram mais fracos e menos sincronizados.
Os pesquisadores consideram que essa alteração pode ajudar a compreender como o envelhecimento modifica a organização dos ritmos biológicos no cérebro. No entanto, ainda são necessários novos estudos para determinar se a restauração desses ritmos poderia trazer algum benefício à saúde cerebral.
O mapa não representa um novo tratamento para Alzheimer, Parkinson ou esquizofrenia. Na prática, ele oferece uma base para que outros pesquisadores investiguem quais células, genes e processos biológicos podem estar envolvidos nessas doenças.
Os cientistas também encontraram diferenças moleculares entre pessoas que receberam o mesmo diagnóstico de Alzheimer. Em alguns casos, indivíduos que mantiveram melhor desempenho cognitivo apesar de apresentarem alterações características da doença mostraram diferenças em processos relacionados à produção e ao uso de energia pelas células.
Essas descobertas podem fornecer pistas sobre possíveis mecanismos de proteção do cérebro, mas ainda precisam ser testadas em pesquisas futuras antes que qualquer aplicação clínica possa ser considerada.
Ao reunir informações de milhares de pessoas e milhões de células, os pesquisadores conseguiram criar uma referência mais detalhada sobre como diferentes tipos celulares do córtex pré-frontal funcionam durante o desenvolvimento, o envelhecimento e em diferentes doenças.
A expectativa é que esse conhecimento ajude a direcionar futuras pesquisas para células e processos específicos. Dessa forma, o mapeamento pode contribuir para a busca de novos alvos terapêuticos e para uma compreensão mais detalhada das diferenças biológicas existentes entre pacientes com o mesmo diagnóstico.
Fonte: CNN Brasil





