Curiosidades

Chevalier d’Éon, a militar transgênero que desafiou o rei da França

0

Chevalier d’Éon (cavaleiro d’Éon), foi uma célebre, carismática, talentosa e intrigante soldado, diplomata e espiã do século 18. D’Éon viveu abertamente como homem e mulher na França e na Inglaterra em diferentes fases da vida, atraindo o interesse público e a atenção da coroa francesa.

Apesar de o fato de resgatar a sua história não ser fácil, já que estava repleta de relatos conflitantes, especulações e rumores, sua biografia “A vida militar, política e privada de Mademoiselle. d’Eon” e correspondências pessoais oferecem várias informações em primeira pessoa.

Gary Kuts se baseou nelas para escrever o livro “Monsieur D’Eon Is a Woman”. Para a BBC, o autor disse que “d’Éon tinha uma gama complexa de ideias e filosofias sobre por que cruzar o limite de gênero era tão significativo”.

Charles d’Éon

Charles-Geneviève-Louis-Auguste-André-Timothée d’Éon de Beaumont nasceu em uma família nobre em Tonnerre, na França, no dia 5 de outubro de 1728. Desde cedo, foi notado que ele era um aprendiz prodigioso.

“Teve uma educação extraordinária e bastante completa”, disse Philippe Luyt, descendente de d’Éon, à BBC Reel.

“Depois Luís 15 deu a ele um cargo ministerial. Daquele momento em diante, teve uma vida extraordinária.”

D’Éon foi enviado como diplomata para falar com a imperatriz Isabel 1ª da Rússia, uma potencial aliada da França em uma guerra com a Grã-Bretanha e o Reino da Prússia.

Como oficial, serviu durante um curto período na segunda metade da Guerra dos Sete Anos. No entanto, como a aliança franco-austríaca estava sofrendo perdas catastróficas, o rei ordenou que ele fosse a Londres para negociar um tratado de paz com os ingleses.

O tratado foi assinado em 10 de fevereiro de 1763. D’Éon foi recompensado pelo rei da França com a Ordem de São Luiz.

“Nesse momento, e desde então, Charles d’Éon se tornou o Chevalier d’Éon”, conta Philippe Luyt.

Chevalier d’Éon

Foto: The Trustees Of The British Museum/ BBC

D’Éon retornou a Londres como chefe da embaixada da França na Inglaterra, assim como parte do Secret du roi, a rede de espiões do rei.

Gary Kuts explica que, “por mais estranho que pareça hoje, o rei Luís 15, além de administrar um núcleo diplomático oficial, também tinha uma organização de espionagem paralela que era desconhecida deste núcleo diplomático”.

Em Londres, d’Éon construiu uma boa reputação. No entanto, em 4 de outubro de 1763, recebeu um pedido oficial do Ministério das Relações Exteriores Francês para renunciar ao cargo e voltar para a França.

De acordo com Kuts, d’Éon se recusou a largar seu cargo na embaixada. A francesa continuou na Inglaterra, mas manteve seu papel de espionagem e começou a chantagear o rei.

Chevalier d’Éon: cavalheiro ou dama?

Foto: Getty Images

Em 1771, a imprensa britânica começou a publicar especulações sobre o sexo biológico de Chevalier d’Éon. Isso fomentou até apostas na bolsa de valores sobre o assunto, já que a essa altura, d’Éon era uma celebridade no país.

Catherine Arnold, autora de “City of Sin: London and its vices”, diz que d’Éon afirmava ter nascido uma menina, mas que o seu pai,  um nobre da Borgonha, passou por momentos difíceis e para que ela herdasse a herança, decidiu criar a filha como menino.

A partir do fim de 1777, Chevalier começou a se apresentar permanentemente como mulher.

Prisão por crime de vestuário

Foto: Getty Images / BBC

Após a morte de Luís 15, em 1774, seu neto, Luís 16, assumiu o trono e começou investigações para acabar com o grupo Secret du roi. Com isso, foram iniciadas negociações entre d’Éon e a nova corte francesa.

Para entregar os seus papéis diplomáticos secretos, d’Éon exigiu que a corte francesa pagasse a ela uma pensão e a reconhecesse oficialmente como mulher. Mas ela ainda desejava manter o direito de usar o uniforme militar de um oficial francês, pois não gostava de roupas femininas.

O rei, convencido de que d’Éon era biologicamente do sexo feminino, concordou com os termos, mas com uma condição de que d’Éon usasse roupas femininas. Apesar de ter concordado, d’Éon usava junto a medalha de São Luís, sua mais alta honraria militar. 

O descendente da espiã, Phillipe Luyt, conta que, agora como mulher, ela “apareceu em Versalhes em uma homenagem a Luís 16 vestida com um vestido de Maria Antonieta (esposa de Luís 16), mas sem se barbear e usando botas”.

Um ano depois, d’Éon foi detida e enviada à prisão em Dijon. Após um ano presa, ela cedeu e foi obrigada a viver, como mulher, na cidade de Tonnerre, por 7 anos.

Feminilidade de Chevalier d’Éon

Foto: Getty Images / BBC

Depois de anos de exílio, a espiã foi autorizada a voltar a Londres, desde que continuasse a usar o guarda-roupa feminino. Kuts aponta que d’Éon continuou se vestindo mulher, mesmo após a Revolução Francesa, em 1789, quando todos os nobres perderam suas pensões.

Kuts afirma não haver dúvida de que d’Éon era trans ou transgênero. No entanto, destaca que “no século 18, ser transgênero era diferente do que é hoje”.

Baseado nos manuscritos autobiográficos de d’Éon, Kutz acredita que d’Éon “via a feminilidade como algo que ansiava alcançar, uma espécie de purificação moral. Era isso que a feminilidade fazia por d’Éon: permitia viver uma vida mais moral.”

Sem dinheiro

Foto: Print Collector

Após a sua pensão francesa anual ser suspensa e o dinheiro acabar, d’Éon participou de exibições de esgrima vestida de mulher, surpreendendo o público. No entanto, as finanças continuaram apertadas e d’Éon morreu na pobreza em 1810, aos 81 anos, após ter vivido 15 anos em Londres como mulher.

A companheira de apartamento, a senhora Cole, foi quem encontrou seu corpo sem vida. Quando começou a despi-la, deu um grito de espanto ao ver o pênis de d’Éon. Após isso, a idosa convocou um comitê de especialistas, incluindo um anatomista, dois cirurgiões, um advogado e um jornalista, que examinaram o corpo e o dissecaram para confirmar a masculinidade biológica de Chevalier.

Antes da dissecação, o artista Charles Turner foi convocado para fazer o desenho do sexo de d’Éon. A gravura pertence hoje ao British Museum, em Londres.

Em seguidas, estão as considerações médicas: “‘Por meio deste certifico que inspecionei e dissequei o corpo de Chevalier d’Eon, na presença de Adair, Wilson e Le Pere Elizee, e encontrei os órgãos sexuais masculinos perfeitamente formados em todos os aspectos. 23 de maio de 1810. Golden Square'”.

“Em consequência de uma nota do cavalheiro acima assinado, examinei o corpo, que era de um homem; — o desenho original foi feito por C. Turner, na minha presença. Dean Street, Soho. 24 de maio de 1810.”

Com isso, foi esclarecido que Chevalier nasceu homem e viveu a segunda metade de sua vida como mulher.

Fonte: BBC

A rainha africana que liderou resistência contra os portugueses

Matéria anterior

Sonda Gaia produz o mapa da Via Láctea mais completo da história

Próxima matéria

Comentários

Comentários não são permitidos