Um experimento que parecia coisa de ficção científica acabou se tornando realidade. Pesquisadores conseguiram criar um chip híbrido com neurônios humanos cultivados em laboratório capaz de aprender a jogar o clássico game de tiro Doom, um dos jogos mais icônicos da história dos videogames.
Nesta foto tirada em 5 de maio de 2026, a cientista pesquisadora Daria Kornienko posiciona uma unidade CL1 contendo células corticais e do hipocampo em uma placa de cultura celular, instalada em racks de servidores e disponível para estudo via internet no laboratório de Nível 2 de Contenção Física (PC2) da Cortical Labs, em Melbourne. — Foto: AFP
A conquista representa um avanço importante na área da computação biológica, um campo que busca combinar células vivas e tecnologia para desenvolver sistemas de processamento mais eficientes do que os computadores convencionais. Além disso, o resultado chamou atenção da comunidade científica porque demonstra que neurônios humanos podem aprender tarefas complexas quando conectados a interfaces eletrônicas.
O sistema foi desenvolvido pela empresa Cortical Labs e utiliza neurônios humanos cultivados em laboratório sobre uma matriz de microeletrodos instalada em um chip de silício.
Esses neurônios recebem estímulos elétricos que funcionam como informações do ambiente virtual. Em seguida, as células geram sinais elétricos próprios e o sistema interpreta essas respostas para convertê-las em comandos dentro do jogo.
Na prática, o chip cria uma interface bio-digital na qual células vivas conseguem interagir com um ambiente computacional em tempo real. Dessa forma, os pesquisadores podem observar como os neurônios aprendem e se adaptam a diferentes desafios.
Antes desse experimento, os pesquisadores já haviam ensinado neurônios cultivados em laboratório a jogar Pong. Além disso, o jogo é considerado um dos videogames mais simples da história.
No entanto, Doom representa um desafio muito maior. Diferentemente de Pong, o jogo exige navegação em ambientes tridimensionais, tomada constante de decisões e adaptação rápida a diferentes situações.
Segundo os cientistas, essa evolução demonstra que sistemas biológicos conectados a chips podem aprender tarefas cada vez mais sofisticadas. Dessa forma, a pesquisa amplia as possibilidades para o desenvolvimento de novas tecnologias.
Os pesquisadores explicam que o sistema utiliza a chamada plasticidade neuronal, uma característica natural dos neurônios humanos. Assim, as células conseguem adaptar seu comportamento conforme recebem novos estímulos.
Durante os testes, os neurônios aprenderam a diferenciar estímulos positivos e negativos. Como resultado, passaram a responder de maneira mais eficiente aos desafios apresentados pelo sistema.
Com o tempo, os neurônios ajustaram seus padrões de atividade para melhorar o desempenho dentro do jogo. Esse comportamento difere dos métodos tradicionais utilizados por inteligências artificiais convencionais, que dependem de grandes volumes de dados e enorme capacidade computacional para treinamento.
Computadores biológicos são sistemas que unem componentes eletrônicos e células vivas para processar informações.
A ideia é aproveitar características naturais do cérebro humano, como adaptação, aprendizado e eficiência energética. Dessa maneira, os cientistas pretendem criar máquinas capazes de resolver problemas complexos consumindo muito menos energia do que os supercomputadores atuais.
Além disso, universidades, empresas de tecnologia e instituições ligadas à neurociência vêm investindo em pesquisas nessa área. Ao mesmo tempo, diversos projetos tentam reproduzir o funcionamento das redes neurais biológicas dentro de sistemas computacionais.
Embora a tecnologia ainda esteja em estágio inicial, especialistas acreditam que ela pode abrir caminho para uma nova geração de computadores. Além disso, diversos laboratórios acompanham os avanços do setor com grande interesse.
Entre as possibilidades discutidas estão sistemas de inteligência artificial mais eficientes, pesquisas médicas avançadas, simulações neurológicas e novas formas de interação entre máquinas e organismos vivos.
Por outro lado, o avanço também levanta debates éticos importantes sobre os limites do uso de células humanas em sistemas computacionais. Além disso, especialistas discutem os impactos dessa tecnologia para o futuro da computação biológica.
Ainda assim, o feito de ensinar neurônios humanos a jogar Doom representa um marco importante para a ciência. Por fim, a pesquisa demonstra que a integração entre biologia e tecnologia pode abrir caminhos inéditos para a computação nas próximas décadas.
Fonte: oGlobo






