
Se você acha que mosquito é só incômodo de verão, está enganado: um modelo matemático recém-publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases prevê que o risco de doenças por mosquito no Brasil vai disparar até 2080. E o vilão da história você conhece bem: Aedes aegypti, aquele mesmo que transmite dengue, zika e chikungunya. O estudo não só projeta onde o mosquito vai bombar, como mostra que clima e urbanização explicam boa parte do crescimento.
Os cientistas combinaram um modelo biológico com equações diferenciais de atraso (parece complicado, mas a ideia é considerar que o que acontece agora depende do que aconteceu antes no ciclo do mosquito) com dados climáticos e fatores humanos (urbanização, acessibilidade urbana, crescimento populacional). Em português claro: eles simularam a vida do mosquito, do ovo ao adulto, sob futuros climáticos plausíveis e diferentes cenários de emissões de gases do efeito estufa (SSPs), de 2024 a 2080.
Primeiro, a boa e má notícia ao mesmo tempo: as projeções são desiguais. O Norte tende a esbarrar em limites térmicos (calor demais também atrapalha o mosquito), enquanto o Sul e o Sudeste ficam cada vez mais amigáveis para o Aedes. Em cenários de altas emissões, a densidade do mosquito no Sudeste pode subir até 92%. No Brasil como um todo, o aumento projetado chega a 31%. Agora, respira: se o mundo trilha o caminho de baixas emissões, esse salto cai para 17% no Sudeste e 11% no país até 2080.
Risco não é bola de cristal, é probabilidade. Aqui, os pesquisadores traduziram mudanças na densidade do Aedes e no ambiente urbano em potencial de transmissão. Em lugares onde o mosquito cresce mais rápido que a população, o risco não só aumenta: ele se espalha. É a receita do caos quando somamos ondas de calor, chuvas irregulares e urbanização desordenada.

A urbanização desordenada é um fator crucial para a proliferação de mosquitos, já que contribui para a criação de muitos criadouros — Foto: Sérgio Souza/Pexels
Se o calor acelera o ciclo do mosquito, a cidade mal planejada dá casa, comida e roupa lavada. Lixo acumulado, água parada, falta de saneamento: tudo vira berçário. O estudo inclui variáveis de acessibilidade urbana e usa técnicas de aprendizado de máquina para “pesar” o papel desses fatores. Moral da história: dá para agir agora com urbanismo e controle de vetores, enquanto a agenda do clima corre em paralelo.
Pois é. Em 2024, a região das Américas bateu recorde histórico de dengue. Em 2025, os boletins seguem alertando números altíssimos, mesmo quando há quedas sazonais, o patamar geral continua preocupante. E o mosquito é o animal que mais mata no mundo quando somamos todas as doenças transmitidas por vetores (malária, dengue, etc.). Isso coloca o tema na lista VIP da saúde pública.
Tradicionalmente, falamos de dengue no Centro-Oeste e no Sudeste. Mas a projeção de hotspots futuros empurra o mapa para áreas que, historicamente, eram menos críticas. Traduzindo: cidades do Sul podem precisar de planos de combate do tamanho das metrópoles tropicais. E, sim, o Sudeste tende a piorar, com surto mais cedo e mais intenso em alguns cenários, porque a densidade do mosquito cresce rápido e encontra grandes populações urbanas.






