Cidades pelo país podem ter temperaturas até 3°C acima da média em setembro — Foto: Wesley Costa/O Popular

El Niño: Brasil deve ter ao menos seis ondas de calor até o fim do ano

O Brasil deve enfrentar pelo menos seis ondas de calor até o fim de 2026, segundo uma análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). A previsão considera o histórico de ocorrência do fenômeno El Niño e indica que o número de episódios pode ser ainda maior.

Cidades pelo país podem ter temperaturas até 3°C acima da média em setembro — Foto: Wesley Costa/O Popular

Cidades pelo país podem ter temperaturas até 3°C acima da média em setembro — Foto: Wesley Costa/O Popular

O cenário preocupa porque as ondas de calor estão ficando mais frequentes e abrangentes no país. Além disso, a possibilidade de um El Niño de forte intensidade pode favorecer temperaturas acima da média, períodos de seca e condições que aumentam o risco de incêndios.

Brasil pode enfrentar pelo menos seis ondas de calor

De acordo com a análise do Cemaden, o Brasil deve registrar ao menos seis ondas de calor entre setembro e dezembro. A estimativa surgiu a partir de uma pesquisa que avaliou 47 anos de registros de temperatura durante períodos de El Niño.

No entanto, esse número representa uma média. Durante o último episódio de El Niño, o país registrou nove ondas de calor entre agosto e dezembro, o maior número da série histórica desde 1979.

A pesquisadora Mabel Calim Costa, doutora em Ciências do Sistema Terrestre e especialista em ondas de calor do Cemaden, explica que o aumento das temperaturas dos oceanos pode contribuir para um cenário ainda mais intenso.

O que caracteriza uma onda de calor?

Uma onda de calor não significa simplesmente enfrentar um dia muito quente. Para caracterizar esse fenômeno, as temperaturas máximas e mínimas precisam permanecer excepcionalmente acima do normal durante pelo menos três dias consecutivos.

Por isso, o impacto costuma ser maior. Em vez de uma elevação passageira da temperatura, o país enfrenta vários dias seguidos de calor intenso, com pouco alívio durante a noite.

Além disso, esse tipo de situação pode aumentar a pressão sobre a saúde da população, o consumo de energia e os recursos hídricos.

Ondas de calor estão atingindo áreas maiores

A análise do Cemaden também mostra uma mudança importante no comportamento das ondas de calor no Brasil.

Durante as décadas de 1980 e 1990, os episódios extremos eram menos frequentes e costumavam ficar concentrados em determinadas regiões, principalmente no Nordeste.

A partir de 2010, porém, esse padrão começou a mudar. Depois de 2020, o aumento ficou ainda mais evidente, com ondas de calor mais frequentes e abrangentes.

Assim, períodos de temperaturas extremas passaram a atingir áreas maiores do território brasileiro e, em determinadas situações, praticamente todo o país ao mesmo tempo.

El Niño pode intensificar o calor e a seca

O El Niño altera os padrões de circulação atmosférica e pode provocar diferentes efeitos sobre o clima brasileiro. Enquanto algumas regiões podem enfrentar chuvas intensas, outras tendem a registrar períodos mais secos e quentes.

Um dos mecanismos que favorecem as ondas de calor envolve áreas de alta pressão que permanecem estacionadas sobre determinada região durante vários dias.

Esses sistemas dificultam a formação de nuvens e reduzem a ocorrência de chuva. Consequentemente, uma massa de ar quente e seco permanece sobre a área por mais tempo.

Sem chuva suficiente para resfriar o ambiente, o solo perde umidade. Ao mesmo tempo, o calor aumenta a evapotranspiração das plantas e do solo, o que pode reforçar a seca.

Setembro já apresenta previsão de temperaturas acima da média

As previsões para setembro indicam temperaturas acima da média em grande parte do território brasileiro. Em alguns pontos, os modelos apontam possibilidade de temperaturas até 3°C superiores à média.

Ainda não é possível determinar exatamente quando ocorrerá cada uma das próximas ondas de calor. Mesmo assim, os dados indicam um período de atenção para diferentes regiões do país.

Além disso, a combinação entre temperaturas elevadas, baixa umidade e pouca chuva pode aumentar os impactos ambientais.

Calor aumenta risco de incêndios

Outro problema associado ao calor intenso é o aumento do risco de incêndios florestais.

Um levantamento que reúne dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, do Instituto Nacional de Meteorologia e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos apontou 560 municípios em nível de alerta alto para fogo.

Essas áreas somam mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a mais de 35% do território brasileiro.

A região entre a Amazônia e o Pantanal aparece entre as áreas mais vulneráveis. Nesse cenário, a combinação de temperaturas elevadas, baixa quantidade de chuva e vegetação mais seca pode facilitar a propagação das chamas.

Norte e Nordeste estão entre as regiões mais vulneráveis

O impacto da seca também preocupa. Dados do Índice Integrado de Seca, produzido pelo Cemaden para o governo federal, apontam que 157 municípios brasileiros já estavam em situação de seca severa.

A maior concentração desses municípios aparece nas regiões Norte e Nordeste. Tocantins registrava 50 cidades nessa condição, enquanto a Bahia aparecia com 18.

Segundo especialistas, essas regiões podem sofrer impactos maiores porque já apresentam áreas com chuva abaixo do esperado.

El Niño também pode afetar o preço dos alimentos

Os efeitos do fenômeno não ficam restritos ao clima. Períodos de calor intenso e alterações no regime de chuvas também podem atingir a produção agrícola e, consequentemente, os preços dos alimentos.

Um estudo citado na reportagem aponta que os alimentos in natura, como carnes e hortaliças, estão entre os produtos mais vulneráveis aos impactos provocados pelo El Niño.

Em um cenário de El Niño forte, os preços dessa categoria poderiam subir 19,9%, enquanto os gastos com alimentação dentro de casa poderiam aumentar 6,32%.

Portanto, além de acompanhar as condições climáticas, o país também precisa considerar os possíveis efeitos econômicos de um período marcado por calor extremo, seca e alterações nas chuvas.

Brasil entra em período de atenção climática

O histórico recente reforça a preocupação. Entre agosto e dezembro de 2023 e 2024, o Brasil registrou nove ondas de calor, o maior número da série histórica iniciada em 1979.

Agora, a expectativa de pelo menos seis novos episódios até o fim de 2026 coloca o país novamente diante de um cenário de atenção.

Embora o número exato de ondas de calor ainda possa mudar conforme a evolução do El Niño e das condições atmosféricas, especialistas avaliam que o país deve enfrentar meses de temperaturas elevadas e maior risco de seca e incêndios.

Por isso, o acompanhamento das previsões meteorológicas será fundamental nos próximos meses, principalmente nas regiões que já enfrentam condições de estiagem.

Fonte: g1

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