O Rio Amarelo perdeu parte da coloração amarelada após a redução dos sedimentos transportados por suas águas. Foto: Reprodução.

Rio Amarelo mudou de cor após a China plantar milhões de hectares de árvores

Durante milhares de anos, o Rio Amarelo carregou enormes quantidades de sedimentos, responsáveis por dar às suas águas a famosa coloração amarelada. No entanto, essa característica começou a mudar depois de décadas de intervenções realizadas pela China.

O Rio Amarelo perdeu parte da coloração amarelada após a redução dos sedimentos transportados por suas águas. Foto: Reprodução.

O Rio Amarelo perdeu parte da coloração amarelada após a redução dos sedimentos transportados por suas águas. Foto: Reprodução.

Além das grandes obras de engenharia, o país também promoveu um dos maiores programas de reflorestamento de sua história. Como consequência, a erosão do solo diminuiu e, ao mesmo tempo, a quantidade de sedimentos transportados pelo rio caiu drasticamente.

Por que o Rio Amarelo era amarelo?

A explicação está principalmente no Planalto de Loess, uma extensa região do noroeste da China formada por depósitos de partículas muito finas acumuladas ao longo de milhares de anos.

Durante as monções, por exemplo, grandes quantidades de poeira provenientes dos desertos da região eram transportadas pelo vento e depositadas sobre o planalto. Com o passar do tempo, esse processo criou uma enorme camada de sedimentos.

Além disso, o solo do Planalto de Loess é bastante vulnerável à erosão. Portanto, quando as fortes chuvas atingiam a região, uma grande quantidade de partículas era arrastada para os cursos d’água.

Dessa forma, o material acabava chegando ao Rio Amarelo e seguindo por seu percurso. Por isso, o rio ficou conhecido por carregar uma das maiores quantidades de sedimentos entre os grandes rios do planeta.

Segundo dados apresentados pelo Xataka Brasil, aproximadamente 90% dos sedimentos tradicionalmente transportados pelo Rio Amarelo tinham origem no Planalto de Loess.

As obras começaram a mudar o rio

Entretanto, essa dinâmica começou a sofrer alterações significativas a partir da segunda metade do século XX.

Entre as décadas de 1970 e 1990, a China construiu diversas barragens, reservatórios e terraços agrícolas na região. Essas estruturas tinham diferentes objetivos, como controlar enchentes, armazenar água e melhorar a produção agrícola.

Ao mesmo tempo, porém, elas também passaram a reter parte dos sedimentos que antes seguiriam naturalmente pelo rio.

Como resultado, o volume de material transportado pelo Rio Amarelo caiu de maneira expressiva. Em 1997, por exemplo, o rio chegou a passar 226 dias sem alcançar o mar. Além disso, aproximadamente 704 quilômetros de seu curso ficaram secos naquele período.

Posteriormente, novas medidas foram adotadas para controlar melhor o sistema. Desde agosto de 1999, o Rio Amarelo não voltou a apresentar um episódio de seca semelhante.

A quantidade de sedimentos caiu 85%

A transformação também pode ser observada nos números.

Entre 1919 e 1959, o Rio Amarelo transportava, em média, cerca de 1,6 bilhão de toneladas de sedimentos por ano. Já entre 2000 e 2020, essa média caiu para aproximadamente 240 milhões de toneladas.

Ou seja, houve uma redução de cerca de 85% na quantidade de sedimentos transportados pelo rio.

Consequentemente, a aparência das águas também começou a mudar. Com menos partículas suspensas, o tradicional tom amarelado perdeu intensidade em diferentes trechos do rio.

O reflorestamento acelerou a transformação

Além das barragens e de outras obras, o reflorestamento teve um papel importante nessa mudança.

Em 1999, a China iniciou o programa Grain for Green, criado para recuperar áreas degradadas e reduzir a erosão. A iniciativa incentivou agricultores a transformar determinadas áreas de cultivo em florestas e vegetação permanente.

Até 2020, o programa havia alcançado cerca de 34,3 milhões de hectares. Na região do Planalto de Loess, especificamente, quase 10 milhões de hectares de terras agrícolas foram retirados do cultivo e convertidos em áreas florestais.

Com mais vegetação cobrindo o solo, a chuva passou a provocar menos erosão. Assim, uma quantidade menor de partículas conseguiu chegar aos rios.

Por consequência, o reflorestamento contribuiu para reduzir ainda mais a quantidade de sedimentos que chegava ao Rio Amarelo.

O rio realmente deixou de ser amarelo?

Apesar da transformação, não significa que o Rio Amarelo tenha perdido completamente sua característica.

Na prática, a coloração varia de acordo com a quantidade de sedimentos presentes na água, além de fatores como chuva, localização e época do ano.

Ainda assim, a redução dos sedimentos alterou significativamente a aparência de vários trechos. Em algumas regiões, as águas passaram a apresentar tonalidades mais pardas ou esverdeadas, em vez do amarelo intenso associado historicamente ao rio.

Portanto, a mudança não aconteceu porque a água em si deixou de possuir determinadas características. Na verdade, o que mudou principalmente foi a quantidade de partículas de solo suspensas nela.

O Rio Amarelo pode voltar a ficar amarelo?

No entanto, essa transformação pode não ser definitiva.

As barragens responsáveis por reter parte dos sedimentos possuem capacidade limitada. Com o passar dos anos, os reservatórios acumulam grandes volumes de material e, consequentemente, sua capacidade de armazenamento diminui.

Por isso, pesquisadores já alertaram que a eficiência dessas estruturas pode cair com o tempo. Caso isso aconteça, uma quantidade maior de sedimentos poderá voltar a seguir pelo Rio Amarelo.

Além disso, mudanças no uso do solo e nas condições climáticas também podem influenciar a erosão do Planalto de Loess.

Dessa forma, o futuro da coloração do rio dependerá de uma combinação de fatores ambientais e das decisões tomadas para administrar a água, o solo e os reservatórios da região.

Uma transformação causada pela ação humana

O caso do Rio Amarelo mostra, portanto, como a intervenção humana pode alterar características naturais que parecem permanentes.

Durante séculos, o rio carregou enormes quantidades de sedimentos e ganhou justamente por isso o nome que conhecemos hoje. Entretanto, décadas de construção de barragens, controle da água e reflorestamento modificaram profundamente esse processo.

Fonte: Xataka Brasil

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