Estudo mostra que abelhas “leem” código Morse

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosNaturezanovembro 13, 2025

Pesquisadores treinaram zangões para distinguir flashes curtos e longos,  como pontos e traços do Morse, e as abelhas acertaram a escolha do alimento mesmo sem recompensa. A descoberta, publicada em Biology Letters, sugere que cérebros minúsculos também processam durações temporais complexas.

Como o experimento foi feito

Os cientistas treinaram cada abelha em um pequeno labirinto experimental. Em cada tentativa havia dois círculos que piscavam, um com flash curto (o “ponto” do Morse) e outro com flash longo (o “traço”), e apenas o estímulo associado ao tempo correto dava acesso a uma gota de açúcar. Quando a abelha escolhia errado, aparecia uma solução amarga (quinina). Com os testes repetidos, a maioria das abelhas aprendeu: passou a voar direto para o flash cuja duração tinha sido ligada ao prêmio.

O teste decisivo

Importante: os pesquisadores não se contentaram só com o comportamento durante o treino. Eles retiraram a recompensa, nada de açúcar, e voltaram a apresentar os flashes. Resultado? As abelhas continuaram a escolher o tipo de flash que antes indicava comida, o que mostra que a escolha era guiada pela duração do estímulo visual, e não por cheiro residual ou pistas espaciais. Isso foi testado trocando de lugar os flashes a cada rodada, para eliminar atalhos.

Por que isso é surpreendente?

Até agora, discriminar “ponto” e “traço”, ou seja, durações curtas e longas de um estímulo, era uma habilidade documentada em humanos e em alguns vertebrados (macacos, pombos). Demonstrar isso num inseto com cérebro do tamanho de uma semente muda o jogo: sugere que a percepção temporal fina pode emergir de circuitos neurais muito pequenos e eficientes. Os autores argumentam que essa capacidade pode ser uma extensão de habilidades úteis na natureza, como percepção de movimento ou comunicação temporal.

Quem liderou o trabalho

O estudo foi conduzido por Alex Davidson (doutorando) sob supervisão da Dr. Elisabetta Versace, do Departamento de Psicologia da Queen Mary. O artigo, intitulado Duration discrimination in the bumblebee Bombus terrestris, foi publicado em Biology Letters e teve ampla divulgação por agências de imprensa científica e pelo próprio centro de pesquisa.

As implicações são amplas. Do ponto de vista biológico, o achado amplia nossa compreensão sobre como cérebros pequenos codificam tempo, uma função crucial para navegação, comunicação e tomada de decisão em muitos animais. Já na tecnologia, entender como circuitos simples resolvem tarefas temporais complexas pode inspirar redes neurais artificiais mais eficientes e escaláveis, conceito que os próprios autores citam como motivação.

Mistérios ainda em aberto

Nem tudo está resolvido. Os mecanismos neurais exatos que permitem essa discriminação de duração ainda são um mistério: ritmos circadianos e “relógios internos” conhecidos são lentos demais para explicar decisões em milissegundos. Por isso, a equipe recomenda novas investigações, tanto neurofisiológicas quanto computacionais, para mapear os circuitos e entender se essa habilidade é um subproduto adaptativo (por exemplo, percepção de movimento) ou uma função com valor seletivo próprio.

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