
Você coloca uma câmera numa ilhota artificial no interior de Goiás e, quatro anos depois, ela registra o mesmo macho de onça-pintada que foi visto no continente em 2020. Como ele chegou lá? Nadando. E não foi qualquer braçada: pesquisadores calcularam um trajeto mínimo de 1,27 km e um máximo de 2,48 km de nado contínuo, o maior já documentado para a espécie.
O cenário é o reservatório da Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, no estado de Goiás, no bioma Cerrado. A onça apareceu primeiro no continente (2020) e, em agosto de 2024, foi fotografada de novo numa ilhota do lago, com a identificação confirmada pelo padrão único de pintas, a “digital” das onças.
Para comparação, o recorde verificado anterior ficava por volta de 200 metros. Essa onça multiplicou o número por mais de dez…
A pergunta de um milhão: o que empurra um felino de topo a cruzar um lago gigante? Segundo Leandro Silveira, do Jaguar Conservation Fund, a hipótese mais provável é exploração de território, busca por fêmeas ou novas áreas, e não falta de comida. Ele cita que a disponibilidade de presas parece bem distribuída na região.
Outro especialista ouvido, Fernando Tortato, da Panthera, lembra que longas travessias podem ser mais comuns do que imaginamos, especialmente na bacia Amazônica, onde rios somam quilômetros de largura. Para onças, água muitas vezes não é barreira; é via.
O estudo que descreve o caso saiu como preprint no bioRxiv e propõe um debate: grandes reservatórios de hidrelétricas são “muros” ou paisagens permeáveis para onças? A travessia quilométrica sugere que, pelo menos em certos contextos, esses lagos podem conectar áreas, embora também criem riscos e custos energéticos.
As equipes usaram armadilhas fotográficas e compararam o padrão das rosetas (as pintas) do animal visto no continente em 2020 com o registrado na ilha em 2024. Essa técnica é padrão para identificar indivíduos de grandes felinos sem contato direto.
Onças já são conhecidas por sua aptidão na água: mergulham para capturar jacarés, peixes e tartarugas. A novidade aqui é a escala da travessia, que bagunça a nossa intuição sobre “barreiras” no mapa. Em outras palavras: o que para nós é um lago sem fim, para a onça pode ser só um caminho mais demorado até a próxima margem.






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