Pesquisadores estão usando inteligência artificial para investigar como as baleias cachalotes se comunicam. O objetivo é identificar padrões nos sons emitidos por esses animais e descobrir se determinadas sequências estão associadas a comportamentos específicos. Embora a tecnologia ainda não consiga traduzir as vocalizações como se fossem frases humanas, os resultados já ajudam a compreender melhor a comunicação da espécie.
Inteligência artificial analisa sons marinhos para revelar segredos da comunicação animal. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
O trabalho é desenvolvido pelo Projeto CETI, sigla em inglês para Iniciativa de Tradução dos Cetáceos. A equipe reúne especialistas em biologia, inteligência artificial, robótica e ciência de redes para estudar as vocalizações das baleias na região de Dominica, uma ilha do Caribe.
A pesquisa combina gravações subaquáticas, sensores e sistemas computacionais capazes de analisar grandes quantidades de dados. Dessa forma, os cientistas procuram identificar estruturas que poderiam passar despercebidas durante uma análise exclusivamente humana.
As cachalotes produzem sequências rítmicas de cliques conhecidas como codas. Esses sons são importantes para a comunicação entre os indivíduos, mas os cientistas ainda investigam como cada sequência é utilizada e quais informações ela pode transmitir.
Para estudar essas vocalizações, a equipe utiliza hidrofones, equipamentos semelhantes a microfones que captam sons debaixo d’água. Os pesquisadores também recorrem a barcos, drones e dispositivos com sensores para acompanhar os movimentos e o comportamento dos animais.
Além disso, alguns equipamentos registram informações como profundidade, deslocamento e atividade física. Com esses dados, os cientistas conseguem comparar os sons emitidos com o que as baleias estavam fazendo naquele momento.
O cruzamento das informações é fundamental. Afinal, um clique isolado pode ter diferentes funções, incluindo a ecolocalização, usada pelos animais para se orientar e localizar presas em ambientes com pouca luz.
Depois de gravar os sons, os pesquisadores organizam os registros em grandes bancos de dados. Essa etapa exige cuidado porque as gravações podem conter ruídos do oceano e vocalizações de várias baleias ao mesmo tempo.
A inteligência artificial ajuda a separar os sons, reconhecer sequências recorrentes e identificar quais cliques provavelmente pertencem à mesma coda. Assim, os algoritmos conseguem analisar grandes volumes de informação em menos tempo.
Mesmo com esse avanço, a participação humana continua indispensável. Especialistas precisam verificar os resultados produzidos pelos sistemas e avaliar se os padrões identificados fazem sentido do ponto de vista biológico.
Além disso, os pesquisadores associam os registros acústicos a informações sobre o comportamento das baleias. Dessa maneira, podem investigar se determinados sons aparecem antes de mergulhos profundos, durante interações sociais ou em outras situações específicas.
O Projeto CETI identificou entre oito e dez codas que podem ajudar a prever quando as cachalotes estão prestes a realizar mergulhos profundos em busca de alimento. Esse resultado representa um avanço na identificação de possíveis relações entre os sons e o comportamento dos animais.
As cachalotes podem mergulhar a centenas de metros de profundidade e permanecer submersas por períodos prolongados. Por isso, compreender suas vocalizações pode oferecer pistas importantes sobre como elas coordenam atividades e interagem em grupo.
Entretanto, identificar uma relação entre determinado som e um comportamento não significa que os cientistas já conheçam o significado exato daquela vocalização. A equipe ainda precisa testar as hipóteses e reunir mais evidências antes de estabelecer interpretações confiáveis.
Uma das hipóteses investigadas é que as codas sigam estruturas organizadas, com combinações de sons que funcionariam de maneira semelhante a unidades básicas de comunicação.
Para testar essa possibilidade, os pesquisadores utilizam redes neurais e outros modelos de aprendizado de máquina. Essas ferramentas conseguem reconhecer regularidades e relações entre diferentes sequências acústicas.
No entanto, ainda não existe um tradutor capaz de transformar os sons das cachalotes em frases compreensíveis para os seres humanos. O avanço atual está na identificação de padrões, não na tradução definitiva de uma linguagem animal.
Essa distinção é importante porque os sons podem transmitir informações de maneiras muito diferentes da comunicação humana. Portanto, os pesquisadores precisam compreender o contexto e a função das vocalizações antes de atribuir significados específicos a elas.
Além de investigar a estrutura das codas, a equipe pretende compreender melhor as relações sociais das cachalotes. Entre as questões em aberto estão a existência de lideranças dentro dos grupos e o papel desempenhado por diferentes indivíduos na comunicação.
Os pesquisadores também querem descobrir se a idade e a posição social influenciam a maneira como os animais iniciam interações ou coordenam seus movimentos.
Com mais dados e ferramentas de análise aprimoradas, a inteligência artificial poderá ajudar a responder a essas perguntas. Ainda assim, qualquer conclusão dependerá da comparação entre os resultados computacionais e as observações do comportamento real das baleias.
A pesquisa mostra como a tecnologia pode ampliar o conhecimento sobre outras espécies. Embora ainda esteja longe de permitir uma conversa entre humanos e baleias, o estudo das codas pode revelar aspectos importantes da vida social desses animais e ajudar a compreender melhor como eles se comunicam.
Fonte: Galileu





