Fala das crianças durante conversa sobre saúde mental e emoções. Foto: Magnific/Reprodução

Jeito de falar das crianças pode revelar riscos à saúde mental no futuro

A maneira como crianças e pré adolescentes contam histórias pode oferecer pistas sobre sua saúde mental nos anos seguintes. Um estudo publicado na revista científica Nature Mental Health identificou padrões de linguagem associados à vulnerabilidade para transtornos como ansiedade e depressão.

Fala das crianças durante conversa sobre saúde mental e emoções. Foto: Magnific/Reprodução

Fala das crianças durante conversa sobre saúde mental e emoções. Foto: Magnific/Reprodução

A pesquisa analisou 204 jovens de 9 a 13 anos e acompanhou a saúde mental dos participantes por até seis anos. Com o auxílio de inteligência artificial, os cientistas avaliaram não apenas o conteúdo das histórias, mas também a forma como as crianças organizavam as frases e conectavam suas ideias.

Inteligência artificial identificou padrões na linguagem

Em vez de procurar apenas palavras que expressam emoções, como tristeza, medo ou raiva, os pesquisadores observaram elementos mais discretos da fala. Entre eles estão pronomes, preposições e conjunções, palavras que ajudam a estruturar frases e estabelecer relações entre acontecimentos.

Esses elementos podem revelar aspectos de como uma pessoa organiza suas experiências e constrói uma narrativa. Segundo os pesquisadores, o estilo da linguagem apresentou informações relevantes para avaliar possíveis vulnerabilidades futuras, mesmo quando os jovens não descreviam diretamente o que sentiam.

A descoberta pode contribuir para o desenvolvimento de ferramentas que auxiliem na identificação precoce de riscos. No entanto, os resultados ainda não significam que seja possível prever com certeza quais crianças desenvolverão algum transtorno mental.

Relatos de violência e exclusão social exigem atenção

A análise também encontrou associações entre determinados temas das histórias e uma maior vulnerabilidade psicológica. Narrativas que envolviam violência física, ameaças, conflitos intensos e exclusão social apareceram entre os fatores relacionados a um risco maior de problemas de saúde mental no futuro.

Essas experiências podem afetar a sensação de segurança e o sentimento de pertencimento durante a infância e a adolescência. Ainda assim, mencionar uma briga ou relatar uma situação difícil não significa, por si só, que a criança tenha um transtorno ou venha a desenvolvê lo.

Por isso, os pesquisadores ressaltam a importância de considerar o contexto de cada relato e outros aspectos da vida dos participantes.

Escola, esportes e convivência podem atuar como fatores de proteção

O estudo também identificou associações entre menor vulnerabilidade e histórias que mencionavam esportes, dança, atividades escolares, clubes, programas extracurriculares e contato com profissionais de saúde mental.

Essas experiências podem oferecer oportunidades de convivência, criação de vínculos e contato com adultos de confiança. Além disso, atividades coletivas podem ajudar a estabelecer uma rotina e ampliar a rede de apoio dos jovens.

Entretanto, a pesquisa não demonstra que participar dessas atividades, isoladamente, impeça o desenvolvimento de ansiedade, depressão ou outros transtornos. Os resultados indicam associações, e não uma relação direta de causa e efeito.

O estudo não permite prever o futuro de uma criança

Apesar dos resultados, os pesquisadores não recomendam usar características da fala como diagnóstico. A saúde mental depende de diversos fatores, incluindo experiências pessoais, ambiente familiar, condições sociais, acontecimentos estressantes e acesso a apoio adequado.

Assim, nenhum padrão de linguagem determina o futuro psicológico de uma criança. A inteligência artificial pode ajudar a identificar possíveis sinais de vulnerabilidade, mas não substitui a avaliação de profissionais de saúde.

Quais sinais os pais devem observar?

Para pais e responsáveis, o mais importante é perceber mudanças persistentes no comportamento habitual dos filhos. Entre os sinais que merecem atenção estão o isolamento social, a perda de interesse por atividades antes apreciadas, a queda no rendimento escolar, alterações no sono ou na alimentação e mudanças intensas de humor.

Esses comportamentos não confirmam, por si só, a existência de um transtorno mental. Porém, quando persistem ou prejudicam a rotina, vale conversar com a criança de maneira acolhedora e buscar orientação profissional.

Mais do que procurar palavras específicas na fala dos filhos, especialistas recomendam criar um ambiente seguro, no qual crianças e adolescentes possam compartilhar suas experiências sem medo de julgamentos. A escuta atenta e o acesso a cuidados especializados continuam sendo fundamentais para proteger a saúde mental durante o desenvolvimento.

Fonte: IstoÉ

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