Mulher acreditou por anos que era perseguida pela máfia

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosSaúdejaneiro 8, 2026

Durante mais de uma década, Pauline Dakin acreditou que sua família estava sendo perseguida pela máfia. Segundo lhe diziam, criminosos vigiavam seus passos, tentavam envenená-la e substituíam pessoas próximas por dublês idênticos. A história, revelada pela BBC News, começou ainda na infância de Pauline e só foi desvendada quando ela já era adulta. A verdade era perturbadora: nada daquilo era real.

Uma infância marcada por mudanças repentinas

Pauline cresceu no Canadá e tinha apenas cinco anos quando os pais se separaram. O pai, Warren, era empresário, bebia excessivamente e se tornava violento. Alguns anos depois, a mãe, Ruth, decidiu sair de casa levando Pauline e o irmão. A mudança aconteceu de forma abrupta, sem despedidas e sem explicações claras. A família deixou Vancouver e se mudou para Winnipeg, a mais de 1.600 quilômetros de distância. Anos depois, uma nova mudança repentina os levou para New Brunswick. Apesar de reconstruírem a vida em cada cidade, Pauline cresceu com a sensação constante de que algo muito errado estava acontecendo.

Um adulto sempre presente

Durante esse período, um homem se tornou figura constante na vida da família. Stan Sears era um pastor evangélico que havia conhecido Ruth em um grupo de apoio a familiares de alcoólatras. Coincidentemente, Stan também se mudava para as mesmas cidades sempre que a família trocava de endereço. Para Pauline, ainda criança, ficava claro que Stan tinha algum papel central nos acontecimentos, mesmo sem entender exatamente qual.

A revelação que mudou tudo

Aos 23 anos, já formada e trabalhando em um jornal local, Pauline recebeu um telefonema inesperado da mãe. Ruth disse que finalmente estava pronta para explicar todas as coisas estranhas que haviam marcado sua vida. O encontro aconteceu em um motel. Antes de falar qualquer coisa, Ruth pediu que Pauline colocasse suas joias em um envelope, alegando que poderiam conter escutas. No quarto, Stan revelou a história que explicaria tudo: eles estariam fugindo da máfia havia 16 anos.

Uma narrativa de perseguição

Segundo Stan, o pai de Pauline teria se envolvido com o crime organizado. Depois disso, a família passou a ser alvo de criminosos. Ele afirmou que tentativas de sequestro, envenenamento e assassinato haviam ocorrido ao longo dos anos, mas que uma força secreta os protegia. Havia ainda comunidades escondidas pelo país, chamadas de “mundo estranho”, onde pessoas perseguidas poderiam viver em segurança. Eventos estranhos da infância de Pauline passaram a fazer sentido dentro dessa narrativa.

Pessoas substituídas por dublês

Com o tempo, a história se tornava ainda mais elaborada. Stan afirmava que pessoas próximas haviam sido mortas ou capturadas e substituídas por dublês treinados, com cirurgias plásticas e estudo detalhado de comportamento. Em encontros familiares, Pauline chegou a ouvir que o próprio pai e uma tia eram, na verdade, impostores. Mesmo desconfiada, ela confiava na mãe e em Stan, pois não via motivo para que inventassem algo tão extremo.

Medo constante e abandono da vida normal

Dominada pelo medo, Pauline passou a evitar restaurantes, mudava constantemente seus trajetos e planejava rotas de fuga. Convencida de que estava em perigo, ela abandonou o emprego, terminou o relacionamento, vendeu a casa e se mudou com a mãe e Stan. O plano era viver em uma das comunidades secretas, mas o momento nunca chegava.

A mentira revelada

Anos depois, Pauline decidiu testar a veracidade da história. Ela inventou um assalto à própria casa e contou à mãe. A resposta de Stan trouxe detalhes impossíveis de serem reais. Foi nesse momento que Pauline percebeu que tudo era mentira. As perseguições, os dublês e o “mundo estranho” nunca existiram.

Confronto e ruptura familiar

Ao confrontar a mãe, Pauline percebeu que Ruth não aceitava a verdade. Para ela, a filha estava se colocando em risco ao deixar de acreditar. Stan tentou justificar a inconsistência como um erro de informação. Sem conseguir convencer a mãe, Pauline decidiu retomar a própria vida e se afastou dos dois.

O diagnóstico tardio

Anos depois, tentando entender o que havia vivido, Pauline leu um artigo médico sobre transtorno delirante. Ela reconheceu imediatamente o comportamento de Stan. Especialistas confirmaram que ele apresentava características clássicas da condição: funcionamento normal em muitos aspectos da vida, mas crenças profundamente irreais e bem estruturadas.

Uma história transformada em livro

Ruth nunca deixou de acreditar nas histórias, nem mesmo após a morte de Stan. Pauline conseguiu se reconciliar parcialmente com a mãe antes de sua morte, em 2010. Hoje, Pauline é professora-assistente de jornalismo no Canadá e transformou sua experiência no livro Run, Hide, Repeat: A Memoir of a Fugitive Childhood.

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