A cidade que os brasileiros não conseguem dormir por conta do calor

Em Belém, o calor deixou de ser apenas uma característica da cidade e passou a definir a rotina de quem vive nas áreas mais vulneráveis. Em 2024, a capital paraense registrou 212 dias de calor extremo, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O número representa os dias em que a temperatura máxima superou todas as máximas registradas em anos anteriores. Nenhuma outra capital brasileira teve tantos episódios desse tipo.

Calor que muda de uma rua para outra

A desigualdade climática em Belém pode ser percebida em poucas quadras. Dados do Censo de 2022 do IBGE mostram que a cidade é a sexta capital do Brasil com mais pessoas vivendo em ruas sem nenhuma árvore. Enquanto bairros centrais contam com túneis de mangueiras e calçadas sombreadas, regiões periféricas convivem com asfalto exposto e ausência quase total de áreas verdes. No bairro do Jurunas, o adolescente Ronald Monteiro, de 15 anos, descreve o calor do fim da manhã como algo que chega de repente e domina o ambiente. Depois de ajudar o pai no trabalho com a extração da polpa de açaí, Ronald tenta descansar à tarde. Mas o calor impede o sono e compromete o rendimento nas atividades do dia.

Os números por trás do calor extremo

Segundo o Cemaden, Belém foi a capital brasileira com mais eventos de extremos de calor em 2024. A cidade chegou a registrar temperaturas de até 37,3°C. Levantamento do Laboratório de Modelagem de Tempo e Clima da Universidade Federal do Pará, com base em dados do Inmet, mostra que a capital já teve 164 dias acima de 35,5°C apenas nesta década.

Isso significa que, em quatro anos, Belém enfrentou mais dias de calor extremo do que nas seis décadas anteriores somadas.

Menos floresta, mais calor

Especialistas apontam que a intensificação do calor está diretamente ligada à perda de cobertura vegetal. Entre 1985 e 2023, Belém perdeu cerca de 20% de sua área de floresta, segundo estudo da Universidade Federal do Pará. A redução da vegetação compromete o equilíbrio térmico da cidade, já que áreas arborizadas ajudam a regular a temperatura e a umidade. Além disso, as mudanças no regime de chuvas afetam o funcionamento natural do ecossistema urbano e rural.

O impacto do calor na juventude

Crianças e adolescentes estão entre os mais afetados pelo aumento das temperaturas. O calor atinge em cheio os horários de entrada e saída das escolas e dificulta a prática de atividades físicas no período da tarde. João Victor da Silva, de 16 anos, morador de Outeiro, tornou-se conhecido como João do Clima após se envolver em ações ambientais em seu bairro. Ele relaciona a crise climática às desigualdades sociais e acredita que os efeitos do calor extremo são mais severos para quem vive longe das áreas centrais da cidade.

Quando o clima altera trajetórias de vida

A história de João é marcada pela perda precoce da mãe, que trabalhava sob o sol intenso em deslocamentos diários longos. O adolescente vê a doença que levou à morte dela como parte de um contexto maior, ligado às condições ambientais e sociais. Hoje, João participa de debates, eventos e iniciativas voltadas à justiça climática e à inclusão da periferia nas políticas ambientais. Ele defende soluções como pavimentação ecológica, educação ambiental e ampliação do plantio de árvores nas áreas mais quentes da cidade.

O calor e a crise do açaí

O aumento das temperaturas também afeta a economia local. Ronald percebe que a qualidade do açaí tem piorado nos últimos anos, com frutos menores e mais ressecados. Em 2025, Belém enfrentou uma crise no abastecimento da fruta, com preços recordes. Em outubro, o litro do açaí médio chegou a custar R$ 28, segundo dados do Dieese Pará. Pesquisadores explicam que mudanças no regime de chuvas interferem no ciclo de frutificação do açaizeiro.

Noites quentes e sono prejudicado

O calor extremo também compromete o descanso. Segundo especialistas, o corpo precisa reduzir a temperatura para alcançar o sono profundo. Ambientes muito quentes dificultam esse processo. Várias noites mal dormidas, alertam pesquisadores, podem trazer impactos à saúde física e mental a longo prazo.

Um futuro que pede escuta

Enquanto líderes mundiais se reúnem a poucos quilômetros de bairros como o Jurunas, jovens como Ronald e João esperam que suas vozes sejam ouvidas. Para eles, o calor extremo não é um dado estatístico, mas uma realidade diária que afeta o corpo, a renda, os estudos e os planos para o futuro.

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