
Amor é simples de sentir e difícil de explicar. E a arte sabe disso há milênios. De estatuetas talhadas na pedra a telas douradas, o desejo aparece como afeto, devoção, ironia, choque e até violência. A pergunta é tentadora: quando a arte começou a mostrar sexo? A resposta curta é que essa história vem de muito antes dos museus.

Os Amantes de Ain Sakhri, escultura de calcita com cerca de 11 mil anos, oferecem um abraço que parece suspender o tempo. Vistos de frente, os corpos se fundem em um só volume, quase como um amuleto do amor. Mas gire a peça e surge outro ângulo: a silhueta se transforma, a carga erótica se impõe e o sentido da obra muda completamente. O que parecia ternura absoluta revela tensão e desejo. A arte começa aqui, no jogo de perspectivas.

Salto para a Índia medieval. Em templos do século 13, casais entrelaçados, os mithunas, simbolizam a união entre o humano e o divino. O detalhe curioso é o modo de ver: fiéis circulavam ao redor do templo no sentido anti-horário. De um lado, a cena parece um beijo em consumação. Do outro, o momento se desfaz em um quase-beijo. O próprio percurso cria um filme de pedra sobre desejo e espiritualidade.

Em A Noiva Judia, Rembrandt congela um instante íntimo. Costuma-se associar a cena a Isaac e Rebeca, do Gênesis, quando o casal deixa escapar a farsa de que seriam apenas irmãos. O truque do pintor é retirar do quadro a figura do rei que espionava a cena em versões anteriores. Sobra quem para observar? Nós. De repente, viramos cúmplices e juízes. A obra pergunta sem dizer: que punição o amor verdadeiro merece quando desafia as aparências?

Na pintura La Surprise, de Antoine Watteau, o casal arrebatado está quase saindo da moldura, enquanto um músico cômico afina o violão ao lado, tentando quebrar o feitiço. Até o cãozinho, em pose de reprovação, parece reagir ao excesso de mel. O alvo aqui não é a doçura do amor, mas o incômodo de quem está de fora da bolha romântica.

No Japão do século 18, Suzuki Harunobu mostra amantes caminhando na neve, envoltos em charme e pose. Olhando bem, galhos recortados como lâminas pairam sobre a dupla. O clima é romântico e melancólico, mas algo ameaça quebrar o encanto. O mesmo jogo aparece no aquarelado Sappho and Erinna in a Garden at Mytilene, de Simeon Solomon, com os símbolos da poesia cercando as duas mulheres e um pássaro negro lembrando o moralismo da época. Amor é ternura, mas também risco.

O século 20 empurra o romantismo para o desconforto. Em O Beijo, de Auguste Rodin, vemos Paolo e Francesca segundos antes da morte no Inferno de Dante. Em Os Amantes, de René Magritte, um beijo de rostos cobertos asfixia a própria ideia de intimidade. E quando a artista Cornelia Parker envolve o mármore de Rodin com uma milha de barbante, ela quer lembrar que relações são feitas de nós, limites, distâncias. Amor perfeito? Só na moldura. O resto é negociação.
Da pedra ao ouro, do templo ao ateliê, a arte nunca retratou o amor como um sentimento único. É afeto e carne, devoção e vaidade, fixidez e fuga. Às vezes é beijo. Em outras, quase. O que muda não é só a cena, é o nosso olhar. E é ele que, no fim, completa a obra.
Fonte: BBC






