Ruivos têm cicatrização mais lenta, ponta novo estudo

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosNotíciasnovembro 24, 2025

O papel oculto do gene que define a cor dos cabelos

Pessoas ruivas representam apenas entre 1% e 2% da população mundial, mas esse grupo raramente é estudado em profundidade pela ciência. Agora, um novo trabalho publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) sugere que o conjunto genético que confere os fios naturalmente vermelhos pode influenciar muito mais do que a aparência.

Pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, identificaram que o gene MC1R, conhecido por determinar pigmentação, também desempenha um papel decisivo na forma como o corpo responde a ferimentos e reconstrói tecidos. A descoberta revela que a desativação parcial desse gene, comum entre ruivos, leva a um processo de cicatrização mais lento e a inflamações que persistem além do esperado.

Por que ruivos cicatrizam de maneira diferente

O gene MC1R atua em uma via biológica que regula a transição da fase inflamatória para a fase de reparo de uma ferida. Em indivíduos de cabelos escuros, o gene costuma funcionar de forma plena; já em pessoas ruivas, é comum que ele esteja inativo ou funcione apenas parcialmente. A equipe de Edimburgo analisou amostras de ferimentos humanos usando técnicas de sequenciamento de RNA de célula única. O objetivo era observar a atividade de vias pró-resolutivas, aquelas encarregadas de “desligar” a inflamação para que a pele comece a se reconstruir.

Em feridas crônicas, como úlceras venosas, diabéticas e escaras, os cientistas notaram um padrão claro: o eixo POMC-MC1R aparece desregulado, impedindo que os mecanismos anti-inflamatórios atuem corretamente. Isso prolonga a inflamação e compromete a etapa seguinte da cicatrização, algo que coincide com características genéticas típicas de ruivos.

Modelos animais reforçam a descoberta

Para entender melhor esse mecanismo, os pesquisadores conduziram experimentos com camundongos de pelagem escura e vermelha, esta última representando animais com MC1R comprometido.

Após padronizar lesões cutâneas, os cientistas acompanharam o processo de cicatrização durante duas semanas. O contraste entre os grupos foi significativo:

  • 95% das feridas nos camundongos ruivos ainda apresentavam crostas após sete dias;

  • entre os de pelagem escura, o índice foi de 68,8% no mesmo intervalo.

Além disso, os modelos ruivos apresentaram maior formação de NETs, estruturas liberadas por neutrófilos para capturar patógenos, mas que, quando persistentes, alimentam inflamações prolongadas. Também houve atraso na reepitelização, essencial para reconstruir a barreira da pele.

Um possível caminho terapêutico

Diante da forte relação entre MC1R e inflamação prolongada, a equipe testou um agonista tópica do gene, uma substância capaz de ativá-lo artificialmente. Após o desbridamento das feridas, parte dos camundongos recebeu apenas gel neutro e outra parte foi tratada com o ativador.

Os resultados impressionaram:

  • a cicatrização foi acelerada,

  • houve redução na área da ferida,

  • a formação de vasos sanguíneos aumentou,

  • e a quantidade de NETs caiu drasticamente.

Segundo os pesquisadores, o tratamento reduziu em até 33% o tamanho das feridas após 14 dias e, em fases mais tardias, essa redução chegou a 68%.

Limitações e próximos passos

Apesar do potencial terapêutico, os cientistas alertam que o agonista só funciona quando existe alguma atividade residual do MC1R. Em variantes totalmente inativas, comuns em parte da população ruiva, o tratamento não produz efeito. Por isso, os experimentos avançaram apenas com camundongos de pelagem escura, cujo gene permanece funcional. Ainda assim, a equipe acredita que grande parte dos pacientes com feridas crônicas possui níveis de atividade suficiente para se beneficiar do tratamento. Ensaios clínicos em humanos devem ser iniciados nos próximos anos, abrindo espaço para terapias personalizadas baseadas no perfil genético de cada indivíduo.

A pesquisa reforça que a genética desempenha um papel muito mais amplo na saúde da pele do que se imaginava e coloca o MC1R no centro de uma nova discussão científica sobre inflamação, reparo tecidual e medicina de precisão.

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