Amazônia “morrendo”? Estudo acende alerta

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosNaturezasetembro 15, 2025

O que está em jogo

A Amazônia é um dos grandes termostatos do planeta. Não é só um “tapete verde” no mapa. É um sistema vivo que recicla água, refrigera a atmosfera e estoca carbono em escala continental. Um novo estudo publicado na Nature sugere que a Amazônia pode começar a morrer ainda neste século. Traduzindo para a vida real, isso significa queda dramática na atividade fotossintética, florestas mais estressadas, períodos secos mais longos e, no limite, uma transição para condições de savana.

Como os cientistas chegaram a essa projeção

A equipe usou Modelos do Sistema Terrestre, os ESMs, que combinam física, química e biologia para simular processos do clima. Foram analisadas 12 simulações diferentes. Em nove cenários, a floresta sofre colapso significativo, com perdas superiores a 80% na produtividade, antes de 2100. O mecanismo que puxa a fila é um combo conhecido: aquecimento global, menos chuva, secas prolongadas e incêndios, que elevam ainda mais a temperatura local e dificultam a recuperação da vegetação.

Esses ESMs são os mesmos usados nos relatórios do IPCC. O painel já aponta tendência a clima mais seco na Amazônia e redução de precipitação em parte da bacia. O estudo novo empilha evidências nesse sentido e encurta o relógio do risco.

O que é o tal do tipping point

Pense na floresta como uma grande rede de equilíbrios. Até que, com calor demais e chuva de menos, chegamos ao tipping point, o ponto de não retorno. A vegetação perde vigor, a mortalidade de árvores aumenta e a cobertura fecha menos o dossel. Isso aquece o solo, seca o ar e reduz ainda mais a chuva. O sistema passa a se “autoalimentar” para o lado errado. Resultado: áreas antes úmidas evoluem rumo à savanização.

Por que o risco subiu agora

  • Mais calor A região aquece mais rápido, o que intensifica evaporação e estresse hídrico.
  • Menos chuva Mudanças na circulação atmosférica e no ciclo hidrológico reduzem a recarga hídrica.
  • Uso da terra Desmatamento e degradação fragmentam a floresta, abrem clareiras e aumentam ignições.
  • Incêndios Fogo frequente derruba a resiliência e empurra a vegetação para estados mais secos.

Efeitos em cascata para o Brasil

1. Biodiversidade sob pressão

A Amazônia abriga mais de 10% da biodiversidade terrestre. Há mais de 15 mil espécies de árvores, com raridades que mal conhecemos. Com clima mais seco e fragmentação, muitas entram na rota de ameaça. Metade das espécies arbóreas pode ingressar em listas vermelhas nas próximas décadas se o aquecimento e o desmatamento continuarem.

2. Povos indígenas e comunidades locais

Mais de 2,2 milhões de indígenas e centenas de etnias dependem de rios, roçados e floresta em pé. Esses grupos, que já demonstraram ser barreiras eficazes ao desmatamento, sofrem primeiro com conflitos, perda de territórios e mudanças abruptas no ciclo das águas. Perder essas comunidades é também perder conhecimento tradicional que protege a floresta.

3. Estresse térmico e saúde

Combinando aquecimento e desmatamento, estudos estimam mais de 11 milhões de pessoas expostas a calor extremo na região. Isso reduz produtividade, eleva riscos à saúde e aumenta a vulnerabilidade de populações já marginalizadas.

4. Menos chuva, mais seca

Modelagens recentes apontam que aquecimento global somado ao desmatamento pode reduzir a precipitação anual em até dezenas de pontos percentuais em partes da bacia e alongar a estação seca. A consequência é um ciclo vicioso que prepara terreno para mais fogo.

5. Fonte de carbono

Pesquisas com medições atmosféricas já alertam que grandes porções da Amazônia emitem mais CO₂ do que absorvem, sobretudo em áreas impactadas por queimadas e degradação. Quando o fogo vira rotina, a balança do carbono inclina para o lado das emissões.

6. Impacto direto no agronegócio

Floresta em pé injeta vapor da água na atmosfera por evapotranspiração e alimenta os “rios voadores”. Se a bomba da água natural enfraquece, lavouras de sequeiro sentem primeiro. O IPCC projeta perdas de produtividade sem adaptação eficaz, especialmente em milho e soja.

E dá para evitar?

Sim. O estudo é um alerta, não uma sentença. O que reduz o risco de cruzar o tipping point:

  • Desmatamento zero: parar a derrubada e conter a degradação em áreas críticas.
  • Restauração florestal: reconectar fragmentos, recuperar margens de rios e nascentes.
  • Fogo sob controle: prevenção e combate com brigadas locais e manejo integrado.
  • Proteção a territórios indígenas e unidades de conservação: evidência mostra que esses territórios preservam mais.
  • Corte de emissões: cumprir metas climáticas para limitar o aquecimento global.

Fonte: Revista Galileu

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