A disputa histórica do barreado: quem realmente criou esse clássico?

O Barreado: cozido de carne, preparado em panela de barro, servido com farinha e banana. Um prato que traz tradição e orgulho ao litoral paranaense. É dessa tradição que nasceu uma rivalidade entre a cidade de Antonina e Morretes, no litoral do Paraná.

Um prato de mais de 200 anos

O barreado nasceu no século XVIII, no litoral do Paraná, durante as comemorações do Entrudo, o carnaval antigo trazido por colonos portugueses. A receita simples, tinha carne bovina, cebola, alho, louro e cominho, e cozinhava por mais de 12 horas em panelas de barro vedadas com uma massa de farinha e água, o “barro” que dá nome ao prato.

A técnica garante um cozimento lento e uniforme, fazendo a carne desmanchar a ponto de poder ser comida apenas com o garfo. (Foto: Minha Receita)

Patrimônio coletivo do litoral paranaense

O barreado já era feito em cidades como Paranaguá, Guaraqueçaba, Guaratuba, Antonina e Morretes, há mais de dois séculos. Além disso, famílias inteiras preparavam esse prato comunitário para celebrar dias de festa, principalmente o carnaval.

Apesar dessa origem coletiva, duas cidades acabaram ganhando destaque na história do prato e protagonizaram a polêmica: Antonina e Morretes.

Antonina: tradição familiar e histórias antigas

Moradores de Antonina garantem que ali estão as famílias mais antigas a preparar o barreado, com receitas passadas de geração em geração desde o século XVIII. Para muitos antoninenses, o prato nasceu ali, à beira da Baía de Antonina, como parte das comemorações populares. Até hoje, várias casas da cidade mantêm o preparo artesanal, usando panelas de barro e a técnica de vedação tradicional.

Cidade de Antonina, no Litoral do Paraná. Foto: SPVS

Morretes: o poder da vitrine turística

Morretes, por outro lado, foi quem transformou o barreado em símbolo turístico do Paraná. A partir da segunda metade do século XX, restaurantes da cidade começaram a oferecer o prato diariamente, atraindo visitantes que chegavam pelo famoso passeio de trem pela Serra do Mar. O turismo fez com que Morretes se tornasse, para o Brasil e até para estrangeiros, “a capital do barreado”, mesmo que Antonina reclame (e com razão) que a história é mais antiga e compartilhada.

Cidade de Morretes, no Litoral do Paraná. (Foto: Dicas de Viagem)

A rivalidade

Essa disputa nunca passou de uma brincadeira saudável, mas é levada a sério no orgulho local. Pergunte a um morretense e ele vai dizer que o melhor barreado está nos restaurantes de lá. Pergunte a um antoninense e ouvirá que o verdadeiro barreado é o que se faz em casa, como antigamente.

No fim, todos concordam em uma coisa: a receita é um patrimônio cultural do litoral paranaense. Tanto que, em 2022, o barreado recebeu Indicação Geográfica como produto tradicional do Paraná, reconhecendo sua importância histórica e cultural para toda a região.

Quem está certo?

A resposta sobre onde o barreado começou, talvez nunca seja encontrada A história e a tradição mostram que ele nasceu como comida comunitária, em várias cidades ao mesmo tempo, mudando com pequenas diferenças locais. Mas talvez essa seja a graça: um prato que não pertence a uma única cidade, mas a um povo inteiro que, de forma saudável, brinca com uma rivalidade que no fim das contas traz consigo uma única coisa: orgulho.

Fonte: Candeias

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