
A pesquisadora Kamilla Souza se tornou especialista em cérebros de baleia após avistá-las em um passeio. Isso deu início a um estudo pioneiro no Brasil.
Kamilla, especialista em cérebros de cetáceos, chegou a Caravelas em agosto de 2023 com o objetivo de coletar o primeiro cérebro de baleia para estudo no país.
A oportunidade surgiu quando uma jubarte encalhou na praia da região alguns dias antes, seguida por outra baleia que morreu pouco depois.
Em quinze dias, Kamilla conseguiu três cérebros de baleia com a ajuda do IBJ. Com o apoio do Instituto Serrapilheira, ela planeja retornar ao estado no próximo semestre para expandir suas pesquisas.
O Serrapilheira também ajudou a oficializar a Rede Brasileira de Neurobiodiversidade, que estuda os cérebros de outros 50 golfinhos coletados durante o doutorado de Kamilla e armazenados na UFRJ.
Kamilla se impressionou com a quantidade de baleias na região durante sua estadia em Caravelas, que coincide com o período reprodutivo no Sul da Bahia.

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Desde sua entrada na faculdade, Kamilla direcionou seu interesse para a neurobiologia. Inicialmente, durante a graduação, trabalhou com elefantes africanos, mas ao começar o mestrado, sua atenção se voltou para os cetáceos, especificamente golfinhos. Até então, todos os cérebros que ela analisava eram de animais doados por pesquisadores estrangeiros.
Durante o doutorado, Kamilla decidiu mudar esse cenário, optando por estudar os cérebros de golfinhos no Brasil.
Apesar das dificuldades iniciais e das dúvidas da banca sobre a viabilidade do projeto, ela conseguiu reunir 50 cérebros de golfinhos de água doce e salgada ao longo de quatro anos, graças à colaboração de diversas instituições.
No entanto, a coleta de cérebros de baleias apresentava um desafio ainda maior. A parceria com o Instituto Baleia Jubarte foi fundamental, dada a experiência da instituição em conservação marinha.
O trabalho de Kamilla é também influenciado pela imprevisibilidade, já que não é possível prever quando uma baleia irá encalhar na costa baiana. A logística para coletar esses animais de grande porte é complexa e exige licenças e expertise, sendo possível apenas através da união de pesquisadores e instituições.
Durante um intercâmbio no Japão durante seu doutorado, Kamilla aprendeu a coletar cérebros, mas o processo lá era muito diferente do que enfrentou no Brasil. Enquanto no Japão era simplesmente pegar o animal e levá-lo para ser dissecado em uma universidade, aqui ela teve que nadar até a baleia encalhada e depois voltar com o cérebro em um pote.
Comparado ao cérebro humano, que já é altamente “girificado” com muitos sulcos e giros, o cérebro de uma baleia possui ainda mais giros e é consideravelmente grande.
Enquanto o cérebro de uma baleia jubarte adulta pesa em média seis quilos, os cérebros dos filhotes coletados por Kamilla na Bahia pesavam em média quatro quilos, em comparação com os cerca de 1,5 quilo do cérebro humano.
Para acessar o cérebro, é necessário determinar um plano de corte no crânio do animal. Kamilla estudou a anatomia dos crânios de baleias em Caravelas para decidir a melhor abordagem, considerando as condições da praia.
O corte precisa ser preciso para acessar o cérebro, o que envolve descamar o crânio e, em seguida, usar serra ou outras ferramentas para remover parte do osso. Ao redor do cérebro, existem camadas de vascularização chamadas meninges, que precisam ser cuidadosamente descoladas do osso para alcançar o órgão.
No caso dos filhotes, Kamilla levou cerca de três horas na primeira coleta e duas horas na segunda. Porém, ela reconhece que em animais adultos esse processo pode levar o dobro do tempo, especialmente em situações complicadas, como quando coletou o cérebro em uma ilha com a maré subindo rapidamente.

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Com a Rede Brasileira de Neurobiodiversidade, Kamilla publicou a primeira descrição do cérebro do boto-cinza, além de planejar expandir colaborações para estudar neuropatologias. Um dos três cérebros coletados em Caravelas apresentava um tumor, evidenciando a importância dessas análises.
A pesquisa também se estende a doenças como Alzheimer, meningite e encefalomielite, que afetam tanto humanos quanto baleias. Kamilla planeja aplicar técnicas de neuroimagem aprendidas em uma especialização na Universidade de Oxford, permitindo uma análise mais detalhada dos cérebros dos animais.
Os próximos passos incluem estudar diferenças entre os cérebros de cetáceos e outros mamíferos, investigar a conectividade cerebral e a composição celular, além de recrutar alunos interessados nessas áreas.
Para Milton Marcondes, do Instituto Baleia Jubarte, entender o cérebro das baleias pode ajudar a compreender problemas como encalhes, possivelmente relacionados a vírus como o mobilivírus. Além disso, a pesquisa pode contribuir para o estudo da linguagem dos cetáceos, destacando suas capacidades cognitivas singulares.
Os cérebros de baleia coletados em Caravelas, Bahia, estão atualmente armazenados no Instituto Baleia Jubarte (IBJ), mas em breve a pesquisadora Kamilla Souza planeja implantar uma segunda geladeira de cérebros para pesquisa na sede do IBJ.
A ideia é substituir o formol por uma solução tampão menos tóxica, mantendo as células vivas e armazenando os cérebros na geladeira.
Kamilla busca estabelecer uma rede de pesquisa em todo o Brasil, não apenas centralizada no Rio de Janeiro, onde atualmente estão os cérebros de golfinhos. A intenção é colaborar com instituições não só na Bahia, mas em outros estados do Nordeste.
O IBJ confirma o plano de implementar a geladeira para os próximos ciclos reprodutivos das baleias. Para os representantes do instituto, essa iniciativa é crucial para apoiar estudos pioneiros como o de Kamilla, fornecendo suporte e infraestrutura necessários.
A utilização de ressonância magnética para estudar os cérebros das baleias é destacada como uma abordagem inovadora e promissora pelo coordenador de pesquisa do IBJ, Milton Marcondes. Isso permitirá um mapeamento detalhado do cérebro e uma compreensão mais profunda de suas características.
Fonte: Correio 24 Horas





