A planta real que “vê” plantas de plástico – e muda de forma para imitá-las

Avatar for Mayara MarquesMayara MarquesNaturezasetembro 19, 2024

Uma planta que imita entrou na lista de uma premiação importante sobre pesquisas inusitadas e inovadoras.

O prêmio IgNobel, que reconhece pesquisas que “fazem rir e depois pensar”, acaba de anunciar os ganhadores de 2024. Entre os premiados deste ano estão estudos sobre o uso de pombos para guiar mísseis, investigações sobre a natação de trutas mortas e a descoberta de que mamíferos podem respirar pelo reto.

Agora, um dos destaques é uma pesquisa conduzida por um brasileiro, Felipe Yamashita, mestre em ecofisiologia pela UNESP, durante seu doutorado na Alemanha.

Felipe descobriu que uma espécie de planta trepadeira possui estruturas semelhantes a olhos, que a ajudam a copiar o comportamento de plantas vizinhas.

Enquanto estudava a inteligência das plantas na Universidade de Bonn, seu orientador o incentivou a prestar atenção em mensagens que vinha recebendo de um desconhecido.

O remetente era Jacob White, um norte-americano sem formação científica formal, mas com grande curiosidade. White há tempos trocava correspondências com o orientador de Felipe, compartilhando experimentos caseiros que conduzia com a trepadeira Boquila trifoliolata.

Para compreender as surpreendentes observações de White, é essencial conhecer melhor essa planta chilena.

Boquila trifoliota

Via PlantNet

Nativa das florestas tropicais do Chile, a Boquila trifoliolata é famosa por sua habilidade de mimetizar, ou imitar, as folhas de outras plantas ao seu redor. Essa adaptação permite que ela se misture visualmente com o ambiente, protegendo-se de predadores que poderiam se alimentar dela.

No entanto, a Boquila é especial: um único exemplar pode imitar simultaneamente as folhas de várias plantas em uma única videira, em um fenômeno conhecido como polimorfismo mimético.

Funciona assim: quando um galho da planta se estende até outra planta, o formato das folhas naquela parte do galho muda para se ajustar à nova planta.

Ela é tão habilidosa nessa camuflagem que levou mais de 200 anos para que alguém notasse que havia uma imitadora escondida na floresta.

O responsável pela descoberta foi o botânico Ernesto Gianoli, da Universidade de La Serena, no Chile. Ele percebeu que um galho estranho de uma árvore era, na verdade, a Boquila imitando sua vizinha.

Em 2014, Gianoli publicou suas descobertas, mostrando que a trepadeira pode imitar o tamanho, a forma e a cor das folhas de mais de 20 espécies diferentes. No entanto, o mecanismo por trás desse fenômeno ainda era um mistério.

Pesquisa sobre planta que imita

Inicialmente, Gianoli especulou que a planta poderia estar captando sinais químicos das outras plantas, como moléculas voláteis ou material genético, para guiar o desenvolvimento das suas folhas.

Mais recentemente, ele sugeriu que a microbiota — as bactérias que habitam tanto a trepadeira quanto as plantas imitada — poderia desempenhar um papel nesse processo.

Quando Jacob White leu sobre isso, ficou curioso. Ele se lembrou de um texto de um professor da Universidade de Bonn que discutia uma antiga hipótese de 1905.

Naquela época, o botânico Gottlieb Haberlandt sugeriu que as células na superfície das folhas poderiam atuar como olhos simples, chamados ocelos. Essas estruturas detectariam a intensidade e direção da luz, mas sem formar imagens.

White conectou essas ideias e decidiu testar a teoria de Haberlandt em suas Boquilas, mas com um detalhe inovador: ele usaria plantas artificiais.

Sua hipótese era clara: se as trepadeiras imitassem uma planta artificial, isso provaria que elas não dependem de sinais químicos, genéticos ou microbióticos. Elas, de fato, “enxergam”.

White conduziu os experimentos em uma prateleira em casa, num quarto de onde removeu todas as plantas naturais. Ele colocou quatro Boquilas numa prateleira mais baixa e, à medida que subiam, encontravam uma prateleira superior com uma planta artificial.

Logo, o inesperado aconteceu: as folhas começaram a se tornar mais pontiagudas, com padrões de veias que lembravam profundamente os da planta artificial.

Os resultados eram positivos para a hipótese de White, mas ele não sabia o que fazer depois. Nesse ponto, entra o brasileiro Felipe Yamashita, cujo orientador já mantinha contato com White.

Doutorando em botânica, Felipe tornou-se coautor do estudo, contribuindo com dados mais sólidos e uma análise aprofundada.

Descoberta

Via PlantNet

Em 2021, após revisão por outros cientistas da área, a descoberta foi publicada na revista Plant Signaling & Behavior, editada pelo orientador de Felipe.

A pesquisa foi recebida com interesse por parte da comunidade científica, principalmente por sua inovação, mas também enfrentou muitas críticas, especialmente quanto ao método utilizado.

Por exemplo, não havia uma planta de controle — uma planta crescendo sem nada para imitar.

Sem esse controle, não é possível descartar outras explicações para as mudanças observadas, como a variação na incidência solar devido à altura da prateleira ou à estação do ano.

Ernesto Gianoli, o principal especialista na Boquila, viu com maus olhos o fato de não ter sido convidado para revisar o trabalho. Em uma entrevista ao The Scientist, ele afirmou que, em sua opinião, o artigo “nunca deveria ter sido publicado.”

Gianoli aponta que há diversos fatores confusos que tornam impossível isolar a mudança no formato das folhas e vinculá-la exclusivamente à presença da planta artificial.

Em entrevista ao site Vox, Yamashita atribuiu as críticas ao fato de seu trabalho desafiar o que ele chamou de “ciência convencional”.

Ele reconheceu que a teoria sobre a visão das espécie e uma planta que imita ainda precisa de mais estudos, e ressaltou que a publicação representava apenas um experimento inicial.

É apenas o primeiro passo

Apenas Yamashita participou da cerimônia de entrega do IgNobel, um evento marcado por piadas nerds e informalidade, apresentado por ganhadores de prêmios Nobel reais.

Embora os cientistas ainda estejam longe de desvendar o mecanismo por trás da imitação da Boquila, isso não é um problema: a ciência avança com ideias ousadas, debates e revisões.

Uma coisa é certa: essa planta que imita, que consegue alterar sua forma para imitar dezenas de outras, continuará despertando interesse.

 

Fonte: Superinteressante

Imagens: PlantNet, PlantNet

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