
Pesquisadores escavaram o buraco mais fundo já feito em uma rocha do manto terrestre, atingindo 1.268 metros abaixo do leito do oceano Atlântico com um navio de perfuração oceânica.
Com isso, eles conseguiram uma extensa amostra que está fornecendo informações sobre a camada mais profunda do nosso planeta.
A amostra em formato cilíndrico está revelando detalhes sobre a composição da camada superior do manto.
Além disso, trouxe informações valiosas sobre os processos químicos que ocorrem quando essa rocha entra em contato com a água do mar em diferentes temperaturas. É o que afirmaram os cientistas na quinta-feira (8).
Segundo eles, esses processos podem ter contribuído para o surgimento da vida na Terra há muitos anos. No entanto, nunca foi possível ter acesso a essas informações antes. Agora, algumas lacunas serão preenchidas.

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O manto, que representa mais de 80% do volume da Terra, é uma camada de rocha de silicato localizada entre a crosta externa e o núcleo quente do planeta.
Geralmente inacessível, essa camada é exposta em locais como o Maciço Atlântis, uma montanha submersa no oceano Atlântico.
Essa região está localizada a oeste da Dorsal Mesoatlântica, que separa as placas da América do Norte das placas da Eurásia e da África.
Assim, utilizando instrumentos a bordo do navio Joides Resolution, os cientistas escavaram o manto a aproximadamente 850 metros abaixo da superfície do oceano, entre abril e junho de 2023.
A amostra obtida é composta por mais de 70% de rocha e possui 886 metros de extensão, a partir do buraco perfurado.
O resultado é inédito, uma vez que tentativas anteriores de perfuração do manto foram desafiadoras, com penetração não ultrapassando os 200 metros e baixa recuperação de rochas.
Em contrapartida, a equipe conseguiu atingir 1.268 metros, coletando extensas seções de rochas contínuas do manto. É o que afirma o geólogo Johan Lissenberg, da Universidade de Cardiff e autor principal do estudo publicado na revista Science.
A amostra central possui um tamanho de cerca de 6,5 centímetros. De acordo com o geólogo e coautor do estudo Andrew McCaig, os pesquisadores inseriram um cilindro de concreto reforçado na abertura e a perfuração se mostrou surpreendentemente simples.
A amostra ainda está em processo de análise. Os cientistas fizeram algumas descobertas iniciais sobre sua composição e registraram um histórico mais extenso de fusão do que eles planejavam inicialmente. Trata-se de rocha derretida, um material pouco maleável de estudar.
O mineral ortopiroxênio, em particular, apresentou uma ampla variação de abundância em diferentes escalas, variando de centímetros a centenas de metros, explicou Lissenberg.
Isso se relaciona ao fluxo de fusão através do manto superior. Conforme o manto superior se expande sob as placas, ele derrete e esse processo de fusão migra em direção à superfície, alimentando os vulcões.
Essas e outras informações só foram possíveis com a escavação do buraco mais fundo da Terra até o momento.

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O buraco mais fundo da Terra traz avanços e esperança para a área de escavações. Com isso, algumas pessoas perguntam se podemos ir mais fundo.
Por exemplo, escavar até o núcleo da Terra. No momento, seria impossível fazer isso com a tecnologia atual, e provavelmente será inviável no futuro próximo.
Isso porque temos alguns desafios pela frente. Esse núcleo está localizado a cerca de 2.900 quilômetros de profundidade. A perfuração mais profunda, com base nessas atividades, é de apenas 1,2 quilômetro.
À medida que se desce em direção ao núcleo, a pressão aumenta drasticamente. No núcleo externo, a pressão é cerca de 3,5 milhões de vezes maior do que a pressão atmosférica ao nível do mar. Essa pressão esmagaria qualquer equipamento de perfuração.
E, claro, estamos falando de altíssimas temperaturas. Mais que o buraco mais fundo atualmente, teríamos cerca de 4.000 a 6.000 graus Celsius, o suficiente para derreter a maioria dos materiais usados em ferramentas.
A composição do núcleo da Terra é, principalmente, materiais líquidos, que são densos e resistentes. Por isso, vamos precisar esperar mais um pouco para avançar rumo a camadas mais profundas do planeta.
Fonte: Folha de São Paulo






