‘Apenas 1% das doenças são hereditárias, o resto é influenciado pela forma que vivemos’; diz geneticista

Avatar for Mayara MarquesMayara MarquesSaúdeagosto 26, 2024

Ao abordar doenças hereditárias e envelhecimento, compreender o DNA pode oferecer mais do que apenas detectar riscos à saúde. Segundo o geneticista molecular Mariano Zalis, os genes não determinam nosso destino.

Ele tem se dedicado à epigenética, que estuda como os genes são ativados ou desativados sem alterar a sequência do DNA. Para o chefe do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da UFRJ, é possível influenciar nossos genes e nos reinventar, mesmo após os 60 anos.

Pesquisas recentes mostram que dietas à base de vegetais podem reduzir a idade biológica das pessoas. Como o estilo de vida afeta mecanismos complexos, como a regulação genética? Os genes não determinam nosso destino. Eles não se autocontrolam.

Quem controla são o ambiente, nosso modo de vida, tudo ao nosso redor, os eventos ao longo da vida e nossos hábitos. Nesse sentido, nosso cérebro desempenha um papel crucial.

Por quê?

Visto que nossas células não têm a capacidade de perceber o ambiente ao seu redor, essa função é realizada pelo cérebro. Todas as sensações que experimentamos são processadas por ele. O cérebro converte essas sensações em informações que são transmitidas para as células.

E quanto aos genes? Os genes são influenciados pelas respostas ao ambiente externo. Apenas cerca de 1% são doenças hereditárias, de origem genética, ou seja, determinadas unicamente por fatores genéticos.

Mesmo nesses casos, o impacto é limitado. Apenas aproximadamente 10% dos casos de câncer de mama e colorretal têm origem hereditária. Ter uma mutação nos genes BRCA 1 ou 2, por exemplo, não garante o desenvolvimento de câncer de mama.

Via Freepik

A doenças hereditárias não são maioria. Grande parte se relaciona com as interações do nosso corpo com o mundo ao nosso redor. Por isso, adotar bons hábitos e manter uma atitude positiva na vida realmente faz diferença.

O estresse em qualquer forma ao longo da vida é um fator de risco para doenças. Isso inclui a alimentação e hábitos prejudiciais.

Atualmente, observamos casos de câncer em pessoas jovens, algo que antes era mais comum em indivíduos mais velhos. O tabagismo e a má alimentação têm um impacto negativo significativo na regulação dos genes. Por outro lado, a prática de exercícios físicos tem um grande impacto positivo.

Papel da genética

E qual é o papel da genética? Certamente tem sua importância. No entanto, não é determinante para a maioria das doenças hereditárias e para o processo de envelhecimento.

Mesmo gêmeos idênticos compartilham o mesmo genoma, mas apresentam expressões genéticas distintas e envelhecem de maneira diferente, devido à regulação e resposta dos genes aos estímulos ao longo da vida.

Quando começa a influência no genoma? Desde o nascimento, a herança genética é moldada por fatores externos, inclusive durante a gestação.

Após a fecundação, a carga genética transmitida pelos pais pode ser positiva ou negativa, dependendo de suas experiências. No entanto, o corpo possui um mecanismo de reset, uma limpeza epigenética, que elimina essa carga para que uma nova vida possa seguir seu próprio caminho, talvez mais saudável ou feliz.

Mas todas as marcas genéticas são apagadas? Não. Marcas deixadas por eventos traumáticos, como guerras, fome, desastres e pandemias, podem permanecer e até ser transmitidas para as próximas gerações. Alguns estudos sugerem essa possibilidade.

Pesquisas

Por exemplo, em relação ao Holocausto, que possui uma extensa documentação. Em Israel, há estudos envolvendo três gerações de sobreviventes e seus descendentes.

Essas investigações identificaram uma alta incidência de problemas metabólicos nos filhos e netos dos sobreviventes dos campos de concentração nazistas, além de questões psicológicas como claustrofobia.

Pesquisas realizadas na Holanda, com descendentes daqueles que sofreram com a escassez de alimentos durante a Segunda Guerra Mundial, apresentaram resultados semelhantes. É alarmante.

O ponto central está relacionado a um mecanismo genético conhecido como metilação. Em termos gerais, a metilação atua como um ajuste fino, controlando onde, quando, com que velocidade e intensidade um gene se expressa.

Epigenética

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A epigenética não se concentra no estudo do genoma em si, mas sim na regulação do comportamento dos genes. Nossas características vão além dos genes e a metilação desempenha um papel fundamental nesse processo.

A ideia tradicional de que um gene é responsável pela produção de uma proteína é simplista. A realidade é muito mais complexa e a metilação é responsável por essa diversidade.

Ela determina quais genes importantes para o coração serão expressos nele e não em outras partes do corpo, por exemplo. É por isso que tantas doenças e até mesmo o processo de envelhecimento estão relacionados a fatores epigenéticos.

O envelhecimento está ligado ao metabolismo (funcionamento dos órgãos, regulação do peso), ao colágeno (aparência da pele) e a uma variedade de outros fatores.

Um exemplo são centenários, que sempre existiram ao longo da história da humanidade, sobrevivendo enquanto seus familiares mais jovens faleciam.

Alguns indivíduos possuem naturalmente uma espécie de proteção genética. Embora vivamos mais atualmente, não é porque há mais pessoas com essa proteção genética, pois elas continuam sendo uma minoria.

Mudanças

Hoje, vivemos mais por conta das transformações no ambiente, como maior acesso a alimentos de qualidade, à água potável e aos avanços da medicina, como antibióticos e vacinas. Não há um gene específico para o envelhecimento ou a longevidade. O ambiente desempenha um papel crucial.

Nossos aproximadamente 25 mil genes sofrem influência de uma variedade de fatores que se moldam pela maneira como vivemos. Muitas pessoas se iludem com artifícios, mas nosso organismo é esperto.

Não adianta recorrer a botox e outros procedimentos estéticos, se o corpo não está saudável por dentro. A pessoa continuará envelhecendo rapidamente, mesmo que tente disfarçar.

E o que fazer?

A repetição da importância da alimentação saudável e da prática de exercícios é fundamental. O estresse, por sua vez, é um desafio ainda mais complexo de lidar, pois não é algo que podemos controlar voluntariamente. Por isso, é essencial buscar uma abordagem mais positiva em relação à vida.

Terapias, ioga e meditação são recursos que podem contribuir significativamente. É possível influenciar nossos genes e nos reinventar, mesmo após os 60 anos.

Existe esperança para aqueles que acreditam que já é tarde demais. É viável prolongar a vida e mantê-la com qualidade. Embora a vida seja finita, podemos torná-la mais satisfatória.

Algumas pessoas aparentam ser mais jovens ou mais velhas do que realmente são. Isso porque elas possuem um relógio biológico mais acelerado do que outras, porém a maneira como vivemos também pode influenciar nesse processo.

A nossa idade real é a biológica, não aquela que está registrada em nossa certidão de nascimento.

Quanto às crianças, elas devem consumir mais alimentos que auxiliam na prevenção da formação de radicais metil, que têm impacto negativo na metilação.

Uma dieta rica em peixes, cereais, vegetais, é essencial. A prática de atividades físicas na infância também é crucial.

Isso, unido a entender mais sobre as doenças hereditárias e a interação com o ambiente, permitirá ter uma vida mais saudável. Estamos apenas começando a explorar o epigenoma, e essa ciência terá um efeito libertador.

 

Fonte: Globo

Imagens: Freepik, Freepik

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