
Pesquisadores da Universidade de Toronto analisaram 1.059 amostras de fluido folicular, aquele líquido que envolve os óvulos em desenvolvimento, e acharam THC em 6% delas. A presença do composto se associou a mais erros cromossômicos e a uma maturação acelerada dos óvulos. Resultado: menor chance de formar embriões cromossomicamente normais na FIV.
Quando falamos de euploidia (o número correto de cromossomos), falamos da base da implantação embrionária e de uma gestação saudável. Óvulos com erros cromossômicos atrapalham a formação de embriões viáveis e reduzem as chances de gravidez. Na prática, isso pode significar mais ciclos, mais tempo e mais desgaste emocional (sem contar o custo).
Em testes complementares in vitro, os autores expuseram óvulos a concentrações mais altas de THC e viram quase 10% a mais de erros cromossômicos, além de alterações em genes ligados a estabilidade do fuso mitótico (a “máquina” que divide cromossomos), matriz extracelular e inflamação. Esses detalhes técnicos ajudam a explicar o mecanismo por trás do problema.
Olha só a pegadinha: o THC esteve ligado a mais óvulos “maduros”, mas maturar depressa demais pode desalinhar cromossomos. Uma analogia rápida: é como tirar um bolo do forno antes dele firmar por dentro. Parece pronto, mas não está. Em reprodução, esse “descompasso” se traduz em erros cromossômicos e menos embriões euploides.
Calma. Ciência raramente é preto no branco. O próprio artigo destaca limitações: é um estudo de base clínica e laboratorial com tamanho de amostra limitado para algumas análises; não controla perfeitamente todos os fatores (idade, reserva ovariana, comorbidades); e foca em FIV, não em concepção natural. Ainda assim, o sinal é consistente e preocupante o suficiente para orientar decisões de saúde.

os óvulos associados a fluidos com níveis mais elevados de THC apresentaram uma probabilidade maior de possuir defeitos cromossômicos — Foto: CRYSTALWEED cannabis / Unsplash
Mesmo antes desse trabalho, revisões de evidências já apontavam riscos do uso de cannabis na gestação, como aumento de prematuridade e baixo peso ao nascer. Em 2025, pesquisadores da Oregon Health & Science University publicaram uma revisão em JAMA Pediatrics reforçando a preocupação.
Na mesma linha, o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) atualizou recomendações: não há indicação médica de cannabis na gestação e no pós-parto; a orientação é abstinência e busca de alternativas seguras para dor, náusea ou ansiedade. Para quem está tentando engravidar (naturalmente ou por FIV), sociedades e revisões independentes também sugerem evitar o uso.
Os autores são cautelosos sobre generalizar os achados para todas as situações de concepção. Ainda faltam estudos que acompanhem a concepção natural sob diferentes padrões de uso. Mesmo assim, os dados de laboratório, somados à análise clínica, formam um quadro coerente: o THC pode bagunçar a “orquestra” cromossômica do óvulo. E, quando o assunto é FIV, cada detalhe conta.






