
Cleópatra foi e é uma das mulheres mais intrigantes e memoráveis de nossa História. Ela foi a última rainha da dinastia de Ptolomeu e também a general responsável por governar o Egito após a conquista do país pelo rei Alexandre, o Grande, figura marcada não apenas em diversas obras literárias e cinematográficas.
Ela está muito presente no imaginário das pessoas, e recentemente voltou a ser assunto por conta da nova série documental da Netflix, “Rainha Cleópatra”. A série tem previsão de estreia para maio, e o que chamou a atenção das pessoas foi que a monarca egípcia será vivida por Adele James, uma atriz negra.
Por mais que várias pessoas defendam uma suposta ancestralidade africana de Cleópatra, outras pessoas levantaram a questão de que a gigante do streaming fez essa escolha somente querendo ganhar audiência. E Mahmoud al-Semary, um advogado egípcio, até entrou com uma ação na Justiça para pedir que a Netflix seja bloqueada no Egito porque, de acordo com ele, a plataforma está promovendo o “pensamento afrocêntrico e de tentar apagar a identidade egípcia”.
Segundo o registro histórico, Cleópatra nasceu no ano 69 ou 70 a.C. em Alexandria, no Egito. Ela foi a última rainha da dinastia helênica fundada por Ptolomeu, e sucedeu seu pai em 51 a.C.
“Isso (a ancestralidade africana de Cleópatra) é completamente falso. Cleópatra era (de origem) grega, o que significa que ela tinha a pele clara, não negra”, pontuou Zahi Hawass, ex-ministro das Antiguidades do Egito e um dos mais influentes egiptólogos da atualidade.
Contudo, mesmo que a monarca seja de uma dinastia conhecida por priorizar casamentos entre parentes, a família de Cleópatra já estava no Egito há mais de dois séculos no momento em que ela nasceu. Ou seja, era tempo suficiente para que alguma miscigenação tivesse acontecido. Além disso, as identidades da sua mãe e avó não são bem estabelecias. Por isso, elas podem ter sido mulheres egípcias ou de alguma parte da África.
Segundo o Tudum, site parceiro da plataforma de streaming na produção, a escalação de Adele James para o papel “era uma referência ao debate de séculos sobre a raça da governante”.
Por conta de toda essa polêmica, a própria atriz disse que tem sido vítima de racismo nas redes sociais. “Esse tipo de comportamento não será tolerado na minha conta. Vocês serão bloqueados sem hesitação. Se você não gosta do elenco, não assista ao programa”, disse Adele James.

Aventuras na história
Por ser uma figura tão fascinante, Cleópatra já foi retratada muitas vezes. A representação mais famosa no cinema foi em 1963 feita por Elizabeth Taylor. Por ela ser bem branca e de olhos claros, Hollywood foi acusada de “whitewashing”, quando se tenta embranquecer figuras histórias. Essa mesma polêmica voltou à tona quando Angelina Jolie e Gal Gadot foram cotadas para interpretar a monarca.
“Então, Cleópatra era negra? Nós não sabemos com certeza, mas podemos ter certeza de que ela não era branca como Elizabeth Taylor. Temos que ter uma conversa com nós mesmos sobre colorismo e a supremacia branca internalizada com a qual Hollywood nos doutrinou”, disse Tina Gharavi, a diretora da série.
Na visão de Alair Duarte, especialista em história antiga da Universidade do Estado do Rio (UERJ), a região do mediterrâneo tinha um fluxo comercial bastante intenso na antiguidade. Por conta disso, sua população era bastante miscigenada. Justamente por isso que, para ele, Cleópatra pode ter sido tão branca quanto Elizabeth Taylor ou tão negra quanto Adele James.
Já o egiptólogo brasileiro Júlio Gralha, do Departamento de História Antiga da Universidade Federal Fluminense (UFF), pontua que entre as representações por Taylor e James, ele ficaria com Gal Gadot. “O problema dessas discussões é que elas fogem um pouco da percepção científica e entram muito no campo da militância. E tudo o que envolve militância é muito difícil de discutir. Eu sou pardo, não sou branco, mas já sei que vão dizer que estou sendo racista”, afirmou.
“Dificilmente Cleópatra seria negra. Também não seria Elizabeth Taylor. Temos algumas representações que sugerem uma mulher de pele clara, olhos escuros e cabelos escuros, eventualmente encaracolados”, disse ela. “O biotipo que a gente imagina seria mais próximo desse da Gal Gadot. O cineasta, obviamente, tem licença poética para botar quem quiser no papel, até uma alienígena, mas o problema é que é um documentário”, completou.
Essa discussão só será finalizada se algum dia o túmulo de Cleópatra for encontrado e um exame de DNA puder ser feito.
Fonte: Terra
Imagens: YouTube, Aventuras na história





