Em 1974, a Coreia do Norte comprou mil carros Volvo 144 da Suécia em uma das maiores negociações comerciais entre o país asiático e uma nação ocidental naquele período. No entanto, o governo norte coreano nunca quitou a compra.
Um dos antigos Volvo 144 enviados à Coreia do Norte em 1974 continuou circulando décadas depois. Foto: Reprodução.
O episódio atravessou décadas e transformou os veículos em protagonistas de uma das histórias mais curiosas da Guerra Fria. Enquanto a dívida aumentava, alguns dos antigos Volvos continuavam circulando pelas ruas da Coreia do Norte.
Na década de 1970, a Coreia do Norte buscava ampliar suas relações comerciais com países do Ocidente. Por isso, em 1974, o governo fechou diversos acordos com empresas suecas.
Entre os negócios estava a compra de mil unidades do Volvo 144, um dos modelos mais conhecidos da fabricante sueca naquela época. O sedã tinha fama de ser resistente e confiável, características que posteriormente ajudariam alguns exemplares a permanecer em circulação por muitos anos.
A Volvo entregou os veículos conforme o acordo. Entretanto, o governo norte coreano não realizou os pagamentos previstos.
O valor original da negociação chegou a aproximadamente 600 milhões de coroas suecas. Como a Coreia do Norte não quitou o compromisso, os juros e outros encargos fizeram a dívida crescer ao longo dos anos.
Em 2017, o débito já chegava a cerca de 2,7 bilhões de coroas suecas, valor equivalente a aproximadamente US$ 330 milhões naquele período.
Além disso, o governo sueco continuou cobrando o pagamento. Como a negociação contava com garantias de crédito à exportação, uma agência sueca assumiu a administração da dívida.
Portanto, a Volvo não simplesmente perdeu os mil veículos. A empresa recebeu proteção financeira por meio do sistema de crédito à exportação da Suécia, enquanto o governo sueco passou a lidar com a dívida.
A situação ficou ainda mais curiosa porque os veículos não ficaram abandonados.
Mesmo décadas depois da compra, alguns Volvo 144 continuavam funcionando na Coreia do Norte. Inclusive, autoridades suecas relataram que determinados exemplares trabalhavam como táxis.
Em 2016, um dos carros chamou atenção justamente por continuar circulando muitos anos depois da negociação original. O veículo já havia acumulado centenas de milhares de quilômetros.
Isso aconteceu principalmente por causa da resistência do Volvo 144. O modelo ganhou fama internacional pela durabilidade e, além disso, teve mais de 1 milhão de unidades produzidas.
Consequentemente, a existência de muitos exemplares espalhados pelo mundo facilitou a obtenção de peças e ajudou alguns carros norte coreanos a permanecerem funcionando.
A situação econômica da Coreia do Norte ajuda a explicar o episódio.
Naquele período, o país ampliou suas importações e realizou grandes investimentos. Ao mesmo tempo, porém, sua capacidade de pagar compromissos internacionais começou a diminuir.
Além disso, parte da estratégia comercial norte coreana dependia da exportação de matérias primas e minerais. Quando os preços internacionais dessas commodities caíram, o país enfrentou dificuldades ainda maiores para honrar suas dívidas externas.
Assim, a negociação com a Suécia acabou entrando em uma longa lista de compromissos não pagos.
Apesar de muitas publicações chamarem o episódio de “roubo dos mil Volvos”, a expressão não descreve exatamente o que aconteceu.
A Coreia do Norte comprou os carros legalmente e recebeu os veículos após fechar o acordo comercial. O problema surgiu porque o país não pagou a dívida posteriormente.
Por isso, o caso se aproxima muito mais de um enorme calote comercial do que de um roubo convencional.
Ainda assim, a história ganhou fama justamente por sua peculiaridade. Afinal, a Suécia enviou mil automóveis para a Coreia do Norte em 1974 e, décadas depois, continuava esperando pelo dinheiro.
O caso dos mil Volvos se tornou um dos exemplos mais curiosos das relações comerciais durante a Guerra Fria.
Enquanto a dívida acumulava juros, alguns dos carros continuavam transportando passageiros nas cidades norte coreanas. Dessa forma, os veículos acabaram se transformando em uma espécie de lembrança sobre um acordo comercial que nunca chegou a ser totalmente pago.
Mais de quatro décadas depois da negociação, a história ainda chama atenção pela combinação incomum de política internacional, indústria automotiva e uma dívida que atravessou gerações.
No fim, os mil Volvos não foram roubados no sentido tradicional. A Coreia do Norte simplesmente recebeu os veículos, não pagou a conta e deixou para trás uma dívida que continuou crescendo durante décadas.
Fonte: Aventuras na História






