Egípcios desenharam a Via Láctea em tumba de 3 mil anos

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosHistóriasetembro 9, 2025

O que a pesquisa encontrou

O trabalho, assinado pelo astrofísico Or Graur, da Universidade de Portsmouth, analisou 125 imagens de Nut dentro de um conjunto de 555 cenas funerárias. Em uma delas, no caixão externo de Nesitaudjatakhet datado de cerca de 3 mil anos, a deusa aparece com uma curva negra ondulada que vai dos pés às mãos. As estrelas estão distribuídas acima e abaixo dessa faixa. O detalhe é o gatilho da hipótese.

Segundo Graur, a curva não é mero enfeite estético. Ela pode representar a Grande Fenda da Via Láctea, isto é, a faixa escura de poeira que corta o brilho difuso da nossa galáxia. Em bom português, alguém olhou para o céu noturno, percebeu a faixa leitosa e a interrupção escura no meio e transformou isso em símbolo sagrado sobre o corpo da deusa que personifica o firmamento.

Quem é Nut e por que ela importa aqui

No panteão egípcio, Nut é a deusa do céu. Costuma ser retratada como uma mulher arqueada, coberta de estrelas, estendida sobre a Terra personificada por Geb. Na mitologia, Nut tem uma tarefa que é poesia pura. Engole o Sol ao anoitecer e o dá à luz na manhã seguinte. Essa visão cíclica do cosmos organiza ritos, calendários e artes visuais.

Em geral, Nut aparece cercada por estrelas pontilhadas. A novidade está quando surge a tal curva ondulada escura. Se for a Via Láctea, estamos diante de um raro caso em que arte e observação astronômica se apertam as mãos com precisão suficiente para ser reconhecida hoje.

Não é só nessa tumba

O estudo aponta padrões semelhantes em outras tumbas, incluindo o Vale dos Reis. Um exemplo marcante é a tumba de Ramsés VI, onde o teto da câmara funerária traz duas figuras de Nut costas com costas separadas por faixas onduladas douradas. A repetição da curva reforça que havia uma intencionalidade cosmológica na composição e não apenas ornamento aleatório.

  • Nesitaudjatakhet curiosidade visual clara com a faixa escura sobre Nut.
  • Vale dos Reis curvas onduladas aparecem como divisoras do Livro do Dia e do Livro da Noite.
  • Leitura coerente a distribuição de estrelas acima e abaixo da curva combina com a aparência do céu real.

Nut não é a galáxia inteira

Importante nuance. O pesquisador destaca que Nut não é a Via Láctea. A deusa é o céu como um todo. A Via Láctea, o Sol e as estrelas são fenômenos que podem adornar seu corpo em diferentes cenas. Em outras palavras, alguns artistas pareceram incorporar a galáxia nas representações de Nut, mas sem reduzir a deusa a apenas esse elemento.

Esse cuidado evita uma leitura literal moderna aplicada a uma cosmologia antiga. A arte egípcia gosta de camadas simbólicas. O que vemos também conversa com rituais, textos funerários e a promessa de renascimento no além.

Como os egípcios observavam o céu

Faixa central da imagem da Via Láctea que você vê acima tem semelhanças com desenhos encontrados em antiga tumba egípcia — Foto: Wikimedia Commons

Os egípcios eram exímios observadores do ciclo solar, do calendário heliacal de Sírius e dos ritmos do Nilo. É natural imaginar que a faixa leitosa que corta o céu chamou atenção. Sem telescópios, dava para notar a assimetria escura dentro do brilho. Essa experiência visual coletiva, repetida em incontáveis noites, vira linguagem artística no espaço mais sagrado de todos a tumba.

Curiosidade rápida. Quando você enxerga a Via Láctea, está olhando a projeção do disco galáctico do lado de dentro. A Grande Fenda corresponde a regiões de poeira interestelar que bloqueiam parte da luz das estrelas. Parece um corte no leite do céu. Para quem vivia imerso em mitos do renascimento solar, essa imagem tem um apelo óbvio.

Comparar faz diferença

Graur sugere um exercício divertido. Coloque uma foto da Via Láctea ao lado das cenas de Nut com a curva. A semelhança salta aos olhos. Ondulações, separação dos campos estrelados, a sensação de faixa atravessando o corpo da deusa. Não é prova definitiva, mas é indício forte de que os artistas captaram a anatomia do céu.

Em ciência e em história da arte, convergência de sinais pesa. A repetição do motivo, sua raridade em meio a centenas de imagens e a consistência com o que o olho humano realmente vê à noite formam um conjunto persuasivo.

Por que isso é fascinante hoje

Porque aproxima cosmologia antiga de astronomia moderna sem desrespeitar nenhuma delas. Mostra que povos do passado não apenas olhavam o céu. Eles pensavam o céu, traduziam em símbolos, pintavam em caixões e tetos para acompanhar os mortos na travessia. E, no caminho, deixaram um mapa poético da nossa própria galáxia.

Fonte: Revista Galileu

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