Mineira que “viveu sem comer ou dormir” há 60 anos vira estudo científico

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosNotíciasnovembro 7, 2025

Quem foi “Lola”?

Floripes Dornellas de Jesus, mais conhecida como “Lola”, nasceu em 9 de junho de 1913, na cidade de Mercês (MG), mudou-se para Rio Pomba (MG) ainda criança e faleceu em 9 de abril de 1999. Na juventude, sofreu uma queda de uma jabuticabeira que resultou em fratura vertebral e paraplegia. A partir desse momento, segundo depoimentos de familiares e da comunidade, o seu apetite, sede e necessidade de sono diminuíram progressivamente até praticamente desaparecerem.

O fenômeno da “inédia eucarística”

O termo “inédia” refere-se à alegada capacidade de sobreviver longos períodos sem alimentação normal. No caso de Lola, o fenômeno ganha o rótulo “inédia eucarística”, porque ela teria se alimentado apenas da hóstia consagrada (comunhão) por mais de sessenta anos. Relatos afirmam que ela também não dormia, ou dormia muito pouco, e apresentava ausência de necessidade de água ou de alimentação comum. Médicos que acompanharam sua vida afirmam que, apesar da paralisia e do longo tempo acamada, ela não desenvolvia escaras típicas associadas à imobilidade prolongada, o que ainda intriga especialistas.

Por que a UFJF investiga este caso?

O Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes), ligado à UFJF, aprovou uma pesquisa científica para examinar os registros, depoimentos, laudos médicos e documentos históricos relacionados à vida de Lola. Coordenado pelo psiquiatra Alexander Moreira‑Almeida, o estudo reúne gastroenterologistas, geriatras e outros especialistas em saúde e espiritualidade. O foco está na investigação de três hipóteses principais:

  • existência de distúrbios alimentares ou psicossomáticos graves que se manifestaram de forma extrema;
  • manualidade ou erro de observação ao longo dos anos, ou seja, se efetivamente houve inexistência de alimentação e sono;
  • fenômeno místico ou espiritual relacionado à fé que ultrapassa explicações científicas convencionais.

Como o estudo lida com fenômeno extraordinário, os pesquisadores adoptam o que chamam de “ceticismo saudável”, investigar sem pré-julgamentos, mas também sem credulidade automática.

Fontes, documentação e desafios

O trabalho de investigação enfrenta algumas limitações importantes: Lola faleceu em 1999, e por isso não é possível fazer monitoramento direto ou exames contemporâneos. A equipe científica está recolhendo entrevistas com familiares, pessoas que a acompanharam, laudos antigos, documentos impressos, ficha médica de quando ela ainda estava viva, e também registros históricos sobre visitas e depoimentos. Um dos médicos que a acompanhou durante cinco anos, o geriatra Cláudio Bomtempo, declarou que “ela sempre foi católica praticante… e que a privação de comida e bebida não havia causado nenhum problema de saúde grave, além da fraqueza da idade natural”. Ainda assim, como o estudo explica, só testemunhos e registros antigos existem, o que torna a confirmação científica completa extremamente difícil.

O que está em jogo?

Esse caso traz implicações múltiplas:

  • Para a ciência: questiona os limites da fisiologia humana, sabemos que sem alimentação, sem beber e sem dormir, o organismo humano tende a entrar em colapso; se os relatos se confirmarem, isso representaria algo extraordinário.
  • Para a fé: Lola é reconhecida como “Serva de Deus” pela Igreja Católica, o primeiro passo para um possível processo de canonização. A investigação científica pode dar mais credibilidade ao processo e ao testemunho de vida dela.
  • Para a cultura popular: o caso mobiliza devotos, peregrinos e curiosos, o sítio onde ela viveu em Rio Pomba virou local de fé e visitação.

Além disso, o estudo aponta para a necessidade de diálogo entre ciência e espiritualidade, duas áreas que nem sempre conversam, mas que neste episódio se encontram.

Próximos passos da investigação

A equipe da UFJF, conforme informado, já obteve aprovação ética e está em fase de coleta de dados intensiva. Entrevistas com testemunhas ainda vivas, recolhimento de laudos antigos e verificação de contradições ou lacunas no registro farão parte da análise. Em paralelo, o processo de canonização de Lola está sob acompanhamento. O padre postulador da causa, Rodney Francisco Reis da Silva, afirmou que a pesquisa científica pode se tornar um “instrumento de credibilidade moral e de fé” para a Igreja.

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