Novo estudo contesta versão de que Cabral chegou ao Brasil por Porto Seguro

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosHistórianovembro 25, 2025

Pesquisadores reacendem debate sobre o ponto exato do “descobrimento”

Uma nova pesquisa acadêmica voltou a movimentar um dos debates mais persistentes da historiografia brasileira: onde, exatamente, Pedro Álvares Cabral avistou o Brasil pela primeira vez? Publicado no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, o estudo, conduzido pelos físicos Carlos Chesman (UFRN) e Carlos Furtado (UFPB), questiona a clássica versão de que a expedição chegou a Porto Seguro, no sul da Bahia.

Os pesquisadores defendem que o primeiro avistamento e o primeiro desembarque teria acontecido no litoral do Rio Grande do Norte, entre as regiões de Rio do Fogo e São Miguel do Gostoso.

Cálculos náuticos indicariam chegada mais ao norte

A equipe analisou a carta de Pero Vaz de Caminha, cruzando informações históricas com medições modernas de correntes marítimas, profundidades e ventos predominantes entre Cabo Verde e a costa brasileira. A partir desses dados, estimaram que a frota percorreu cerca de 4 mil quilômetros antes de avistar terra firme em 22 de abril de 1500, mas que, devido às condições naturais da navegação, a posição mais provável desse avistamento seria na costa potiguar, e não na baiana. Segundo Chesman e Furtado, o “grande monte, mui alto e redondo” descrito por Caminha não corresponderia ao Monte Pascoal, mas sim ao Monte Serra Verde, localizado em João Câmara (RN).

Onde Cabral teria pisado pela primeira vez

Com base na reconstituição matemática, os autores sugerem que o primeiro desembarque ocorreu na praia de Zumbi, em Rio do Fogo. Ventos mais intensos teriam então empurrado parte da frota para o norte, onde o grupo teria feito uma segunda parada na praia do Marco, local onde existe um marco português datado de 1501, o mais antigo monumento europeu em território brasileiro.

A ideia de que Cabral chegou primeiro ao território potiguar não é nova. No século XX, o historiador Luís da Câmara Cascudo já defendia essa possibilidade, abrindo espaço para um debate que se manteve vivo na região. Durante a pandemia de Covid-19, Chesman revisitou o tema e passou a desenvolver os cálculos que resultaram no novo artigo.

Contraponto histórico: Monte Pascoal ainda é o favorito entre especialistas

Apesar do novo estudo, a hipótese tradicional segue sendo majoritária entre historiadores. Um dos trabalhos mais respeitados nesse campo é o do almirante Max Justo Guedes, publicado em 1975. Especialista em história naval, Guedes reconstruiu a rota de Cabral utilizando documentos náuticos da época e características das caravelas portuguesas, concluindo que a descrição de Caminha corresponde à costa baiana, especialmente à região próxima ao Monte Pascoal.

A UFRN planeja sediar um colóquio científico no próximo ano para discutir o estudo e confrontar as diferentes metodologias de reconstituição da viagem cabralina. Os autores afirmam que o objetivo não é firmar uma “verdade definitiva”, mas incentivar novas investigações sobre um dos momentos fundadores da história do país.

Seguir
Buscar
Carregando

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...