O que acontece quando comida e remédio brigam dentro do corpo?

Imagina a cena: um homem de 46 anos, na Índia, chega ao hospital com uma situação constrangedora, uma ereção dolorosa que já durava cinco horas. Motivo? Ele tinha tomado sildenafila (o famoso Viagra), mas resolveu acompanhar a dose com um copo de suco de romã. Resultado: a bebida potencializou tanto o efeito do remédio que os médicos precisaram intervir às pressas.

Pois é, essa não foi a primeira vez que a comida resolveu “se meter” no trabalho dos remédios. O corpo humano é como uma fábrica química: tudo que entra pode interagir de formas inesperadas. E às vezes, a combinação dá ruim.

Os casos mais curiosos (e perigosos)

  • Toranja (grapefruit): a campeã das interações perigosas. Ela inibe a enzima citocromo P450 3A4, que ajuda a quebrar muitos medicamentos. Sem essa enzima, a droga fica mais tempo no corpo e pode atingir níveis tóxicos. Afeta desde estatinas (para colesterol) até remédios para pressão e até antivirais.
  • Cranberry: já foi acusado de intensificar o efeito da varfarina, um anticoagulante. Há relatos de pacientes que quase tiveram hemorragias depois de misturar os dois. Mas os estudos são contraditórios e até fabricantes de suco se meteram na disputa.
  • Alcaçuz: pode mexer em enzimas que metabolizam drogas cardíacas e antidepressivos. Em excesso, pode bagunçar a pressão arterial.
  • Alcachofra e cúrcuma: parecem inofensivas, mas já causaram casos de toxicidade no fígado quando combinadas com certos tratamentos, inclusive contra o câncer.
  • Queijo e laticínios: não é mito! Eles podem “abraçar” moléculas de antibióticos como ciprofloxacina, impedindo que o remédio seja absorvido. É o famoso “efeito queijo”.
  • Verduras ricas em vitamina K: reduzem o efeito da varfarina. Não significa cortar salada da vida, mas a dose do remédio precisa ser ajustada ao hábito alimentar.
  • Queijos curados e alimentos fermentados: quando combinados com antidepressivos do tipo IMAO, podem causar picos perigosos de pressão.

Por que isso acontece?

Cada alimento carrega compostos bioativos e quando eles entram em contato com os princípios ativos dos remédios, podem amplificar, neutralizar ou modificar seus efeitos. O corpo, como lembra a pesquisadora Jelena Milešević, funciona como uma fábrica com insumos entrando o tempo todo. O problema é que, às vezes, os “ingredientes” brigam dentro dessa linha de produção.

Nem sempre é ruim

Mas calma: não é só tragédia. Cientistas acreditam que algumas dessas interações podem ser usadas a nosso favor. Pesquisas em andamento tentam usar dieta cetogênica (baixa em carboidratos) para potencializar remédios contra o câncer. Ou seja, a comida pode virar aliada se usada do jeito certo.

E agora, como evitar confusões?

A regra de ouro é simples: não misture comida e remédio sem orientação. Para antibióticos, por exemplo, basta evitar laticínios duas a quatro horas antes ou depois. No caso da varfarina, mantenha uma dieta constante para que a dosagem seja ajustada. E se o seu médico perguntar sobre sua alimentação, conte a verdade, isso pode salvar sua saúde.

Fonte: BBC

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