O que é a placa de Ea-nasir, o primeiro exposed da história

Parece uma longa reclamação no Reclame Aqui, mas, na verdade, a placa de Ea-nasir é o artefato arqueológico mais antigo já encontrado contendo uma queixa de cliente.

Esse objeto é uma inscrição em um retângulo de argila datado de 1750 a.C., medindo 11,6 centímetros de altura e 5 centímetros de largura. No entanto, o mais impressionante é seu conteúdo. Ela apresenta uma mensagem de ódio de um homem que se chama Nanni. Ele fala com Ea-nasir, um famoso mercador da antiga Mesopotâmia.

Escrito em acadiano, o texto é basicamente uma reclamação de Nanni sobre os produtos do comerciante, acusando-o de vender cobre de baixa qualidade e de tratar mal tanto ele quanto seu mensageiro. A placa foi descoberta na década de 1920 e atualmente faz parte do acervo do Museu Britânico.

Com seu caráter anacrônico e inusitado – assemelhando-se a uma avaliação de uma estrela em um marketplace –, e por demonstrar que a arte de reclamar é tão antiga quanto as primeiras civilizações humanas, a placa de Ea-nasir se tornou um meme nas redes sociais.

Via Globo

O que aconteceu?

A situação detalhada é a seguinte: na cidade de Ur, na Antiga Mesopotâmia (atualmente localizada no Iraque), havia um mercado de bronze conhecido como Ea-nasir.

Ele viajava até Dilmun, uma cidade portuária localizada na região do atual Bahrain, para comprar lingotes de cobre e retornava a Ur para vender o metal, utilizado na fabricação de diversos itens e ferramentas essenciais para a vida naquela cidade-Estado.

Um de seus clientes, um homem chamado Nanni, tinha uma visão crítica sobre Ea-nasir como vendedor. De acordo com Nanni, Ea-nasir prometeu entregar lingotes de cobre de boa qualidade, mas forneceu um produto inferior.

Insatisfeito, Nanni ditou uma mensagem a um escriba, que a registrou em uma placa de argila usando a escrita cuneiforme da época. A mensagem foi traduzida várias vezes, mantendo sempre o mesmo conteúdo essencial. Em uma das traduções, lê-se:

“Você não cumpriu o que prometeu. Você entregou lingotes de má qualidade ao meu mensageiro e disse: ‘Se você quiser levá-los, pegue-os; se não quiser, vá embora!’”

Placa de Ea-nasir traz detalhes da reclamação

Nanni também reclamou que seu mensageiro foi tratado de forma rude por Ea-nasir e afirmou que já pagou pelo produto, mas ainda não o recebeu.

“Tome conhecimento de que, a partir de agora, não aceitarei nenhum cobre seu que não seja de boa qualidade. Eu mesmo selecionarei e pegarei as barras individualmente em meu próprio quintal, e exercerei meu direito de rejeição porque você me tratou com desprezo”, diz a mensagem.

Quase 3.700 anos depois, o artefato foi descoberto pelo arqueólogo britânico Sir Leonard Woolley durante uma expedição na região do Iraque onde ficava a cidade de Ur. Woolley, já tendo explorado áreas da elite e do governo daquela antiga civilização, decidiu investigar como era a vida da população comum. Ele focou as escavações nas quadras das casas e comércios desse centro urbano.

Via Superinteressante

Era ali que a placa estava quando a equipe a encontrou, especificamente no ponto que deveria ser a casa de Ea-nasir. Isso porque existia outros documentos de argila relacionados aos seus negócios.

Curiosamente, apesar de sua fama, esta placa não é a única reclamação contra o comerciante; outros fragmentos encontrados mostram clientes insatisfeitos com a qualidade do cobre de Ea-nasir, alegando que não receberam seus pedidos e também cobrando dívidas.

Há indícios de que ele tenha em algum momento parado de vender metais para focar em outros produtos e, mais tarde, precisou vender parte de sua casa para se sustentar.

Apesar de não existir comprovações tão concretas quanto se gostaria, a existência da placa de Ea-nasir e sua tradução são provas de que clientes insatisfeitos existem em todo lugar.

 

Fonte: Superinteressante

Imagens: Superinteressante, Globo

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