‘Só dá valor depois que perde’: Google paga R$ 15 bilhões para trazer de volta cientista de dados

Avatar for Mayara MarquesMayara MarquesInovaçãosetembro 27, 2024

Em um momento em que as empresas de tecnologia investem fortunas para atrair os maiores talentos da inteligência artificial, a recontratação de Noam Shazeer pelo Google deixou a concorrência para trás.

Shazeer, coautor de um artigo seminal que impulsionou o boom da IA, havia deixado o Google em 2021 para fundar sua própria startup, após o gigante das buscas se recusar a lançar um chatbot que ele havia desenvolvido.

No entanto, quando sua empresa, a Character.AI, começou a enfrentar dificuldades, o Google entrou em cena.

Segundo fontes próximas às negociações, o Google desembolsou US$ 2,7 bilhões – cerca de R$ 15 bilhões – para licenciar a tecnologia da Character.AI. Mas o acordo trouxe um detalhe adicional: Noam Shazeer concordou em retornar ao Google.

Via Business Today

Foi preciso contratar Noam Shazeer

Internamente, o retorno de Shazeer é visto como o principal motivo para a big tech ter aceitado pagar uma taxa de licenciamento tão elevada.

O acordo acontece em meio a um debate no Vale do Silício sobre se as grandes empresas de tecnologia estão gastando demais na corrida para desenvolver IA de ponta, algo que muitos acreditam ser crucial para o futuro da computação.

“Noam é, sem dúvida, uma pessoa brilhante nessa área”, afirmou Christopher Manning, diretor do Laboratório de Inteligência Artificial de Stanford. “Mas ele seria 20 vezes melhor que os outros?”.

Essa reviravolta é surpreendente, já que Noam Shazeer criticou publicamente o Google por se tornar excessivamente cauteloso no desenvolvimento de IA.

Agora, aos 48 anos, ele é um dos três líderes responsáveis por avançar a próxima versão da tecnologia de IA mais poderosa do Google, chamada Gemini.

De acordo com fontes próximas ao assunto, Shazeer recebeu centenas de milhões de dólares por sua participação na Character.AI como parte do acordo. Esse valor é considerado extraordinário, especialmente para um fundador que não vendeu sua empresa nem abriu capital.

O Google não permitiu que Shazeer fosse entrevistado, e ele não respondeu às solicitações de comentários.

Frustração e demissão

Noam Shazeer entrou para o Google em 2000, em uma das primeiras levas de funcionários. Seu primeiro grande projeto foi melhorar a correção ortográfica do mecanismo de busca, e logo pediu ao então CEO, Eric Schmidt, milhares de chips para avançar seu trabalho.

Apesar do esforço inicial não ter tido sucesso, Schmidt viu potencial em Shazeer, afirmando que ele poderia alcançar inteligência humana para IA.

Em 2017, Shazeer coautorizou o artigo “Attention is All You Need”, que introduziu o conceito de IA generativa, base para muitas tecnologias de IA atuais.

Ele também colaborou com o brasileiro Daniel de Freitas para criar o chatbot Meena, que tinha o potencial de substituir o mecanismo de busca do Google e gerar trilhões de dólares.

No entanto, preocupações com segurança levaram o Google a não lançar o chatbot, resultando na saída de Shazeer e Freitas em 2021 para fundar a Character.AI.

Via Wikimedia

Se Elon Musk fosse um chatbot

Um ano após o lançamento da Character.AI, a OpenAI revelou o ChatGPT, mostrando o grande interesse do público por chatbots de inteligência artificial.

Em março seguinte, a Character levantou US$ 150 milhões em uma rodada de investimentos, alcançando uma avaliação de US$ 1 bilhão.

Noam Shazeer e sua equipe esperavam que os usuários pagassem para interagir com chatbots que oferecessem conselhos práticos ou simulassem personalidades famosas como Elon Musk, além de personagens fictícios como Percy Jackson.

Com o crescimento da empresa, os funcionários passaram a lidar com clientes que usavam os chatbots para encenações românticas. Isso não estava alinhado com a visão de Shazeer e Freitas.

Como outras startups de IA, a Character enfrentava dificuldades para cobrir os altos custos de desenvolvimento antes de garantir uma fonte consistente de receita.

No início deste ano, Shazeer buscou levantar mais fundos e sondou possíveis compradores, incluindo a Meta, controladora do Facebook. O acordo com a Alphabet, dona do Google, foi anunciado no mês passado, com a Character afirmando em seu blog que “o cenário mudou” no setor de IA.

Segundo uma porta-voz da Character, a empresa conta com mais de 20 milhões de usuários ativos mensais e está no caminho certo para construir um negócio voltado ao consumidor final.

Dinheiro entrando

Além do pagamento a Shazeer, o investimento do Google serviu para adquirir ações de investidores e funcionários da Character, além de financiar as operações da startup — com exceção de Shazeer, Freitas e cerca de 30 funcionários que se juntaram ao Google.

Essa prática não é inédita no setor de tecnologia. Empresas como Microsoft e Amazon também fizeram acordos semelhantes neste ano, licenciando tecnologias de startups principalmente para contratar suas equipes sêniores.

Essa abordagem permite atrair talentos de IA de startups em dificuldades sem enfrentar as exigências regulatórias de aquisições formais.

Além disso, funcionários do Google que trabalham com IA afirmam não saber como a empresa planeja utilizar a tecnologia licenciada da Character.

Mesmo assim, Shazeer, agora de volta ao Google com o cargo de vice-presidente, deixou de ser administrador de uma empresa com centenas de funcionários. Com isso, poderá focar em pesquisa e supervisionar uma pequena equipe, incluindo Freitas.

Sergey Brin, cofundador do Google e figura chave no retorno de Shazeer, comentou recentemente que a empresa antes era cautelosa na implementação de IA. Agora, o Google está comprometido em desenvolver e lançar tecnologias de IA o mais rapidamente possível.

 

Fonte: InvestNews

Imagens: Wikimedia, Business Today

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