
Três cães selvagens africanos percorreram 4.126 quilômetros pela Zâmbia em uma jornada extraordinária em busca de novos territórios e oportunidades de reprodução. O percurso estabeleceu o maior deslocamento de dispersão já registrado para um mamífero terrestre africano.

Abaixados, com a coluna reta e concentrados, os mabecos entram em modo de camuflagem para se aproximarem da presa. Foto de Nicholas Dyer.
Os animais eram três irmãos da espécie Lycaon pictus, conhecida como cão selvagem africano. Eles deixaram a matilha onde nasceram e passaram meses atravessando áreas protegidas e regiões ocupadas por seres humanos.
No entanto, a viagem não aconteceu em linha reta. Os cães precisaram contornar cidades, reservatórios e outros obstáculos naturais. Por isso, embora a distância máxima entre os pontos extremos tenha sido de aproximadamente 419 quilômetros, o trajeto acumulado chegou a impressionantes 4.126 quilômetros.
Os três machos pertenciam à matilha Mayukuyuku, no Parque Nacional de Kafue, na Zâmbia. Todos tinham aproximadamente três anos quando deixaram o grupo durante 2025.
Antes deles, quatro fêmeas da mesma idade também haviam abandonado a matilha. Como os sete animais eram parentes, permanecer no mesmo grupo oferecia poucas possibilidades de reprodução entre eles.
Isso acontece porque os cães selvagens africanos vivem em grupos sociais bastante organizados. Normalmente, apenas o macho e a fêmea dominantes da matilha se reproduzem.
Consequentemente, indivíduos jovens podem deixar o grupo natal quando atingem a idade adulta. Dessa forma, eles procuram outros parceiros e novos territórios onde possam estabelecer uma nova vida reprodutiva.
Para entender os movimentos dos animais, pesquisadores instalaram coleiras de rastreamento em integrantes dos grupos.
Assim, foi possível acompanhar os deslocamentos durante meses e reconstruir os caminhos percorridos pelos cães.
Em determinado momento, os três machos chegaram às proximidades de importantes cidades da Zâmbia, como Kitwe, Ndola e Kabwe. Em vez de atravessarem diretamente essas áreas, entretanto, eles desviaram o caminho e continuaram a viagem.
Além disso, os animais precisaram contornar grandes reservatórios e atravessar regiões com diferentes níveis de proteção ambiental.
Em alguns trechos, eles também retornaram por áreas que já haviam percorrido. Consequentemente, a distância acumulada aumentou muito em comparação com uma rota direta entre o ponto de partida e o destino.
Ao longo da jornada, os três cães selvagens seguiram em direção ao leste da Zâmbia.
Posteriormente, chegaram à região do Vale do Luangwa, onde encontraram uma nova área para viver. O percurso total registrado pelas coleiras chegou a 4.126 quilômetros.
Esse número representa a soma de todo o trajeto realizado pelos animais. Portanto, não significa que eles tenham se afastado 4.126 quilômetros em linha reta de sua matilha original.
Na prática, a distância direta entre os pontos extremos foi muito menor. Ainda assim, o deslocamento acumulado estabeleceu um recorde para a dispersão de um mamífero terrestre africano.
A dispersão é fundamental para a reprodução e para a sobrevivência das populações de cães selvagens africanos.
Quando jovens deixam suas matilhas, eles podem encontrar indivíduos de outros grupos e formar novas associações. Dessa maneira, o deslocamento também ajuda a conectar populações que vivem separadas por grandes distâncias.
Além disso, a movimentação de animais entre diferentes regiões pode contribuir para a diversidade genética da espécie.
Entretanto, encontrar um novo território não significa necessariamente encontrar um parceiro. Os cães selvagens também enfrentam dificuldades para ingressar em grupos desconhecidos e estabelecer novas relações.
Por isso, uma longa jornada pode terminar sem reprodução ou até mesmo com a morte do animal.
Embora os três machos tenham conseguido completar a longa viagem, outros animais monitorados durante o estudo enfrentaram um destino diferente.
Uma das fêmeas acompanhadas pelos pesquisadores provavelmente morreu depois de ficar presa em uma armadilha de arame utilizada na caça de animais para obtenção de carne. Depois disso, os pesquisadores perderam o sinal das outras fêmeas que não possuíam o mesmo tipo de monitoramento.
Além das armadilhas, os cães selvagens enfrentam outros perigos durante suas viagens. Estradas, cidades, perda de habitat, leões, hienas e travessias de rios podem aumentar os riscos para os animais.
Dessa forma, percorrer grandes distâncias exige não apenas resistência física, mas também a capacidade de atravessar paisagens cada vez mais fragmentadas.
Os pesquisadores consideram que a longa jornada revela algo importante sobre a conservação da espécie.
Mesmo quando áreas protegidas estão separadas por centenas de quilômetros, os cães selvagens ainda conseguem percorrer grandes distâncias entre elas. Assim, corredores naturais podem permitir que diferentes populações permaneçam conectadas.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que essas conexões estão sujeitas a diversos riscos.
Por isso, preservar apenas parques e reservas isoladas pode não ser suficiente. É necessário também manter áreas que permitam o deslocamento seguro dos animais entre diferentes territórios.
O cão selvagem africano está entre os mamíferos ameaçados do continente. A espécie sofre com a fragmentação de habitats, doenças, conflitos com seres humanos e armadilhas utilizadas na caça.
Nesse contexto, a jornada de 4.126 quilômetros oferece uma informação importante para os pesquisadores. Os animais ainda possuem capacidade para atravessar grandes áreas e conectar populações distantes.
Por outro lado, a mesma capacidade também os expõe a perigos quando precisam deixar regiões protegidas.
Assim, o recorde dos três irmãos não representa apenas uma demonstração de resistência. Ele também revela como a sobrevivência desses animais depende da existência de paisagens suficientemente conectadas para permitir que encontrem novos territórios e parceiros.
Fonte: CNN Brasil






