Entre as histórias mais impressionantes do naufrágio do Titanic está a de Charles Joughin, padeiro-chefe do transatlântico que recusou um lugar em um bote salva-vidas, ajudou passageiros durante a evacuação e depois entrou nas águas geladas do Atlântico Norte.
Charles John Joughin (à esq.) junto ao barco RMS Titanic no dia de sua partida (à dir.) – Divulgação / Wikimedia Commons
Joughin sobreviveu ao desastre de 15 de abril de 1912 e, segundo seu próprio depoimento, permaneceu na água por cerca de duas horas antes de alcançar um bote. Entretanto, alguns detalhes de seu relato são considerados improváveis por historiadores, principalmente o tempo que ele teria passado exposto à água congelante.
Charles John Joughin nasceu em 3 de agosto de 1878, em Birkenhead, na Inglaterra. Desde muito jovem, ele se aproximou da vida marítima e começou a trabalhar em embarcações ainda na adolescência.
Com o passar dos anos, Joughin ganhou experiência como padeiro e chegou ao cargo de padeiro-chefe do RMS Olympic, navio irmão do Titanic. Posteriormente, a White Star Line o colocou na tripulação do novo transatlântico.
Quando embarcou no Titanic, Joughin comandava uma equipe de 13 homens responsáveis pela produção de pães e outros alimentos para os passageiros e tripulantes.
Na noite de 14 de abril de 1912, Joughin descansava em seu alojamento quando sentiu o impacto da colisão com o iceberg.
Assim que percebeu o acidente, ele se levantou e ordenou que sua equipe levasse grandes quantidades de pão aos conveses onde os botes seriam lançados. Dessa maneira, os passageiros teriam alimentos durante a tentativa de resgate.
Pouco depois, Joughin chegou ao convés dos botes e passou a ajudar na evacuação. Ele trabalhou próximo ao Bote 10 e ajudou mulheres e crianças a entrar na embarcação.
Além disso, segundo seu depoimento ao inquérito britânico, algumas mulheres inicialmente não queriam deixar o Titanic. Por isso, ele insistiu para que elas embarcassem enquanto a tripulação acelerava a retirada dos passageiros.
Joughin tinha uma função ligada ao Bote 10 e poderia ter embarcado. No entanto, decidiu permanecer no Titanic.
Segundo seu próprio relato, dois marinheiros e um camareiro já estavam na embarcação. Por isso, ele entendeu que não precisava ocupar outro lugar e deixou o bote partir sem ele.
Depois disso, Joughin voltou para seus aposentos. Foi nesse momento que tomou uma pequena quantidade de bebida alcoólica. Em seu depoimento, ele descreveu a dose como aproximadamente meio copo de licor.
A história acabou criando a famosa imagem do “padeiro bêbado que sobreviveu ao Titanic”. Contudo, essa versão simplifica bastante o que aconteceu naquela noite.
Enquanto o naufrágio avançava, Joughin continuou circulando pelo navio.
Segundo seu testemunho, ele chegou ao convés B e lançou diversas espreguiçadeiras ao mar. A intenção era criar possíveis objetos de flutuação para pessoas que acabassem na água.
Posteriormente, Joughin voltou para os conveses superiores. Nesse momento, o Titanic já apresentava uma inclinação cada vez maior e centenas de pessoas tentavam encontrar uma maneira de escapar.
Então, o padeiro se dirigiu para a popa, onde permaneceu enquanto o navio desaparecia sob as águas.
O relato de Joughin sobre seus últimos momentos a bordo tornou sua história ainda mais conhecida.
Segundo ele, conseguiu permanecer na parte externa da popa enquanto o navio afundava. Assim, quando o Titanic desapareceu sob a superfície, Joughin acabou descendo com a embarcação e chegou à água sem sofrer uma queda violenta.
Depois disso, ele afirmou que permaneceu flutuando e nadando durante aproximadamente duas horas.
Ao amanhecer, Joughin avistou o Bote Desmontável B, que havia virado durante o processo de lançamento. O Segundo Oficial Charles Lightoller e outros sobreviventes permaneciam sobre o casco da embarcação.
Joughin nadou até o bote, mas encontrou pouco espaço. Mesmo assim, o cozinheiro Isaac Maynard o reconheceu e segurou sua mão enquanto ele permanecia ao lado da embarcação. Posteriormente, outro bote chegou e retirou Joughin da água.
Essa é uma das partes mais repetidas da história, mas também uma das mais controversas.
Joughin contou que havia ingerido bebida alcoólica e que quase não sentiu os efeitos do frio. Entretanto, isso não significa que o álcool tenha protegido seu corpo contra a hipotermia.
Na realidade, o álcool pode aumentar a perda de calor do organismo. Portanto, a ideia de que beber teria sido responsável pela sobrevivência de Joughin não encontra respaldo científico.
Além disso, historiadores questionam a duração exata de sua permanência na água. A temperatura do Atlântico Norte naquela região era extremamente baixa, o que torna difícil aceitar literalmente a estimativa de duas horas sem considerar as circunstâncias específicas do resgate.
Assim, o mais correto é dizer que Joughin afirmou ter passado cerca de duas horas na água, e não que essa duração tenha sido comprovada com precisão.
Depois de alcançar um bote, Joughin permaneceu entre os sobreviventes até chegar ao RMS Carpathia, navio que resgatou as pessoas que escaparam do naufrágio.
Posteriormente, ele retornou à Inglaterra e prestou depoimento durante o inquérito britânico que investigou o desastre.
A experiência, porém, não encerrou sua carreira no mar. Joughin continuou trabalhando em embarcações e, em 1920, mudou-se definitivamente para os Estados Unidos.
Mais tarde, trabalhou em navios da American Export Lines e também em embarcações utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial. Ele se aposentou em 1944.
A trajetória de Joughin também chegou às telas.
O personagem apareceu no filme A Night to Remember, de 1958, e posteriormente foi interpretado por Liam Tuohy no clássico Titanic, lançado em 1997.
No filme de James Cameron, Joughin aparece brevemente durante o naufrágio, em uma cena que faz referência à história do padeiro junto a uma garrafa.
Embora a representação cinematográfica tenha ajudado a popularizar sua história, os detalhes reais são ainda mais curiosos. Afinal, Joughin não apenas sobreviveu ao naufrágio: ele permaneceu no Titanic enquanto outros passageiros tentavam escapar e participou ativamente da evacuação.
Joughin continuou vivendo nos Estados Unidos depois da tragédia. Em 1956, aos 78 anos, morreu em um hospital de Paterson, no estado de Nova Jersey, após enfrentar uma pneumonia. Sua história, entretanto, permaneceu ligada ao Titanic.
Fonte: Aventuras na História





