A São Paulo de 1822 tinha uma alimentação bem diferente da atual. Enquanto a Independência do Brasil entrava para a história, os moradores da cidade tinham à mesa alimentos que hoje ainda fazem parte da culinária brasileira, como milho, mandioca, carne, frutas e doces.
Família brasileira do século XIX sendo servida por escravizados, pintado por Jean-Baptiste Debret – Wikimedia Commons via Domínio Público
Não existe um cardápio específico que registre exatamente o que foi servido em 7 de setembro de 1822. No entanto, relatos de viajantes e documentos da época ajudam a reconstruir os hábitos alimentares dos paulistanos naquele período.
Entre os produtos mais importantes estava a farinha de milho. Os naturalistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius passaram por São Paulo entre 1817 e 1820 e registraram que a farinha era consumida em pequenas cestinhas, cumprindo um papel semelhante ao do pão na alimentação europeia.
O milho também aparecia na canjica. Na época, o preparo podia envolver deixar os grãos de molho, socá-los e depois cozinhá-los em água ou leite. Para adoçar, eram usados açúcar ou melado.
A farinha de mandioca também fazia parte da alimentação. Conhecida como “farinha de pau”, ela era consumida pelos paulistas, embora os relatos indiquem que a farinha de milho tinha maior presença na região.
O naturalista francês Auguste de Saint Hilaire esteve em São Paulo em 1819 e voltou à província no ano da Independência. Em seus relatos, mencionou produtos encontrados na região da atual Rua do Tesouro, então conhecida como Rua das Casinhas.
Entre os alimentos considerados indispensáveis estavam farinha, toucinho, arroz, milho e carne seca.
A carne fresca também fazia parte do abastecimento da cidade. Estudos históricos mostram que açougues já comercializavam o produto e que as autoridades fiscalizavam seu transporte, sua venda e sua exposição.
A alimentação paulistana não se limitava a grãos e carnes. O comerciante inglês John Mawe registrou, no início do século XIX, a presença de pequenos agricultores que criavam porcos e aves e abasteciam os mercados da região.
Entre as frutas encontradas estavam pinhas, uvas, pêssegos, goiabas, bananas, maçãs e marmelos.
Também havia uma variedade considerável de verduras e legumes, incluindo cará, repolho, nabo, couve flor, alcachofra, batata, batata doce e ervilha.
Boa parte do abastecimento acontecia diretamente nas ruas. As quitandeiras, muitas delas mulheres negras, vendiam alimentos e outros produtos para a população.
Documentos da Câmara de São Paulo mostram que, em 1821, comerciantes chegaram a reclamar da atuação dessas vendedoras. Elas comercializavam produtos como arroz, feijão, farinha e carne de charque pelas ruas da cidade.
Assim, o comércio de alimentos não dependia apenas de estabelecimentos formais. As ruas também funcionavam como importantes espaços de abastecimento e circulação de comida.
Embora os restaurantes como conhecemos hoje ainda não fossem comuns, São Paulo já tinha as chamadas casas de pasto.
Esses estabelecimentos ofereciam refeições prontas e começaram a ganhar espaço principalmente entre os grupos mais ricos. A partir da década de 1820, comer fora de casa passou a envolver não apenas a alimentação, mas também lazer e sociabilidade.
Além disso, a abertura dos portos em 1808 ampliou a circulação de produtos estrangeiros. Pelo porto de Santos chegavam massas, queijos, embutidos e frutas secas, alimentos que ficavam mais acessíveis para quem tinha maior poder de compra.
A mesa paulistana de 1822 variava bastante conforme a origem e a condição econômica de cada pessoa.
Enquanto alimentos básicos como milho, mandioca, arroz, feijão e carnes faziam parte do abastecimento cotidiano, produtos importados tinham acesso mais restrito.
Por isso, não é possível falar em uma única “comida de São Paulo” na época da Independência. A alimentação refletia a diversidade da população e as profundas diferenças sociais existentes naquele período.
Mais de dois séculos depois, muitos daqueles ingredientes continuam presentes na culinária brasileira. A diferença é que, naquela São Paulo ainda marcada pelo período colonial, comprar, preparar e vender comida fazia parte de uma cidade muito menor, com cerca de 16 mil habitantes em 1822.
Fonte: Estadão






