Fóssil gaúcho pode revelar segredo das extinções em massa

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosHistóriasetembro 16, 2025

Um tesouro escondido no Pampa

Quem diria que o solo do interior do Rio Grande do Sul guardava uma pista para decifrar um dos maiores mistérios da vida na Terra? Foi em São Gabriel, na Campanha Gaúcha, que surgiu, em 2010, o fóssil mais completo do período Permiano já encontrado na América do Sul. Estamos falando do Rastodon procuvirdens, um animal que viveu há cerca de 260 milhões de anos, muito antes dos dinossauros darem as caras.

O achado foi tão importante que especialistas da Universidade Federal do Pampa e do Museu Nacional da UFRJ decidiram olhar para ele com ainda mais atenção. E a tecnologia deu uma força: com microtomografias computadorizadas, conseguiram analisar detalhes do crânio e do esqueleto sem destruir o fóssil. Resultado? Uma verdadeira reviravolta científica.

De presas curvas a vida em tocas

Até pouco tempo, o Rastodon era classificado como um dicinodonte bidentálio, um herbívoro com bico sem dentes e duas presas curvas, lembrando uma mistura improvável de tartaruga e javali. Mas os novos estudos mostraram que ele se encaixa em outro grupo: o dos emidopóideos, animais conhecidos por viver em tocas subterrâneas.

“Ele se adaptou à vida em tocas. Não era um escavador exímio como uma toupeira, mas lidava bem com a tarefa”, explicou João Lucas da Silva, doutorando e líder da pesquisa.

A descoberta faz do exemplar gaúcho o mais antigo representante desse subgrupo já encontrado no mundo, levantando a hipótese de que a origem dos emidopóideos pode ter sido na própria América do Sul. Ou seja: talvez o Pampa tenha sido berço de um dos sobreviventes da maior extinção da história.

A maior extinção de todos os tempos

Para entender a importância, precisamos voltar 250 milhões de anos. Foi no fim do Permiano que ocorreu a chamada “Grande Morte”, quando cerca de 90% das espécies marinhas e 70% das terrestres desapareceram. Para se ter ideia, foi uma tragédia ainda maior do que a que eliminou os dinossauros milhões de anos depois.

E adivinha só? Muitos dicinodontes sumiram nessa época. Mas os emidopóideos, grupo do nosso Rastodon, resistiram.

“Entender quem resistiu e por quê é fundamental para compreender padrões evolutivos e refletir sobre a atual crise da biodiversidade”, afirmou o paleontólogo Voltaire Paes Neto, do Museu Nacional.

Em outras palavras: estudar fósseis como esse pode nos ensinar não apenas sobre o passado, mas também sobre o futuro da vida na Terra.

Um fóssil raro e valioso

O material encontrado em São Gabriel é de encher os olhos dos especialistas. O fóssil preserva um crânio quase completo e partes do esqueleto, o que permitiu até uma reconstrução visual do animal. Os cientistas concluíram que se trata de um jovem adulto, o que ajuda a traçar comparações sobre o desenvolvimento da espécie.

Pedro Godoy, professor da USP que avaliou o estudo, destacou a importância:

“É uma descrição extremamente completa, com uso de tecnologia de ponta, de um material muito raro”.

E não é exagero: fósseis desse nível de preservação no Brasil são exceção, não regra.

Sonho de encontrar uma toca

Apesar de todo o avanço, os pesquisadores ainda têm um desejo guardado. Sonham em achar uma toca fossilizada do Rastodon, como já foi registrado em fósseis da África do Sul. Isso permitiria comparar diferentes fases de vida e entender melhor como esses animais viviam em comunidade.

Enquanto essa toca não aparece, a Unipampa já prepara uma boa novidade: uma exposição especial da ossada, prevista para dezembro, que deve aproximar o público de uma das descobertas mais importantes da paleontologia brasileira. Afinal, não é todo dia que se vê de perto o fóssil de um animal que sobreviveu ao maior desastre natural da história.

Fontes: Aventuras na História

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